Prezada presidente Patrícia Amorim
quinta-feira, 31 de março de 2011
quarta-feira, 30 de março de 2011
Flamengo negocia com a Record Por Vinicius Paiva
terça-feira, 29 de março de 2011
UMA BANDEIRA PARA JOSÉ DE ALENCAR

*Texto do brother Maurício Neves, publicado originalmente no melhor blog do Mengão, o @urublog do também irmão Arthur Muhlemberg.
Saudações flamengas a todos. Após mais um empate contra um adversário inexpressivo (ao menos valeu a capacidade de reação), a impressão é de que, se o onze titular já exibe um esboço de bom futebol, o treinador ainda não conseguiu encontrar no elenco as peças corretas para a reposição de eventuais ausências. Se é que essas peças existem...
Seja como for, aí vai mais uma historinha dos Alfarrábios. Boa leitura.
A Alvorada do Sonho
1939. O Flamengo, após doze anos de jejum, enfim caminha para a conquista do Campeonato Carioca. O time de Domingos, Leônidas, do goleiro Walter, do zagueiro Newton Canegal (todos de Seleção), dos argentinos Volante, Valido e Gonzalez, e da grande contratação do ano, o ítalo-argentino Raimondo Orsi (primeiro ganhador de Copa do Mundo a atuar pelo Flamengo), vai dominando amplamente a temporada. Apenas o Botafogo ainda tenta, com muita dificuldade, acompanhar o ritmo flamengo, mas o campeonato já se aproxima do final, e o rubro-negro segue mantendo confortável vantagem na ponta. A mais longa espera da história flamenga vai chegando ao seu final.
O iminente título flamengo dá um importante sopro na imagem do clube, muito desgastada com a ainda recente indigência dos anos 30. O Flamengo se torna o time da moda, o objeto de desejo, admiração e inveja. Ninguém está indiferente à equipe de listras rubro-negras, a melhor do país, com meia seleção brasileira em seu elenco. Leônidas, no auge da carreira, ganha um prêmio atrás do outro, tem tratamento de estrela de primeira grandeza. Domingos arrasta suspiros idolatrados por onde passa. O Flamengo, a cada jogo, arrebanha multidões cada vez maiores em estádios superlotados, com gente pendurada em marquise, em árvore, gente arrombando portão, enfim. Todo mundo de repente quer ser Flamengo, quer ver o Flamengo. Os garotos sonham em jogar no Flamengo. Entre eles, um menino franzino de Niterói...
* * *
Em Niterói, um jovem de 18 anos divide o seu tempo ajudando o pai no trabalho, batendo bola nas peladas da rua e do clube e torcendo pelo Flamengo nas ondas do rádio. Todo mundo considera o garoto muito talentoso, bom de bola mesmo, “você devia procurar um clube, você sabe das coisas”. Encorajado, o menino vai atrás do América. O treinador rubro não o deixa nem entrar em campo, “muito franzino”. Vai no São Cristóvão. Começa bem, mas põe a bola entre as pernas do zagueiro Afonsinho, tenente de polícia, jogador de seleção e líder do time. Na jogada seguinte, leva um coice de Afonsinho, rebenta o joelho e sai do treino. Outra frustração. Desiludido, o garoto volta à sua vidinha normal, experimentando a alegria de ver seu Flamengo quase campeão e colecionando troféus de campeonatos de bairro. Até que num desses torneios, um olheiro do Flamengo põe-lhe vista grande.
Com a penúria dos anos 30, o Flamengo começara a criar uma rede de olheiros pelo Rio de Janeiro e arredores, com o objetivo de recrutar jogadores habilidosos e ainda desconhecidos. Seria o arcabouço de um trabalho de base que mais tarde se tornaria mais estruturado e logo renderia frutos. Um desses olheiros, dando uma checada num baba de Niterói, gosta do que vê e chama o garoto, quer testar no Flamengo? O menino a princípio titubeia, “esse negócio de fazer testar em clube não dá certo”, mas acaba aceitando. Tenta não criar expectativa, medo de nova frustração, mas por dentro o garoto arde. Sua paixão flamenga braseia-lhe o corpo incontrolavelmente.
No dia combinado, lá está o garoto, todo engomado, camisa brilhando, par de chuteiras impecavelmente polidas. Só que o menino tem uma inesperada companhia. Outros jovens como ele estão na Gávea, às dúzias, aos magotes. Todos são orientados a sentar ao redor do campo enquanto se inicia o treino dos profissionais. O menino nem pisca os olhos. Lá estão Leônidas, Domingos, todos eles. Fascinado, o garoto não consegue balbuciar nada, está petrificado. Eles ali, tão pertinho... O treino segue, o tempo vai passando, e Flávio Costa não faz a menor menção de colocar nenhum daquela rama de garotos que está ali sequiosa por uma migalha, uma mísera chance. Concentrado no treino e na reta final do campeonato, que nem cogita perder, Flávio não parece muito disposto a ficar testando garoto a essa altura dos acontecimentos. Eles que olhem e salivem pelos craques que estão ali à sua frente.
Acontece que o garoto, apesar de modesto e fascinado, guarda certa altivez. E, após se acostumar com o ambiente mágico ao seu redor, já começa a mostrar alguma impaciência, que vai virando desânimo. O tempo passa, e passa, e passa. O menino logo percebe que ali, naquele dia, não vai acontecer nada. O jeito é terminar de assistir ao treino e voltar pra casa. Terá valido pelas histórias pra contar aos vizinhos e à família. Enfim, é a vida. O garoto vai se perdendo nessas divagações enquanto rabisca o chão com um graveto. Súbito, o milagre.
Leônidas tenta uma jogada mais audaciosa, estica demais a perna e sente. Flávio, assustado, tira o craque de campo. Ainda faltam dez minutos. O treinador pensa um pouco e grita “Quem é o rapaz de Niterói?”, berro que rebenta como uma chicotada nos ouvidos do menino. Não pode ser, é comigo, só pode ser comigo, incrível, isso não tá acontecendo, é um sonho... “Sou e..e... eu, sim senhor”
“O senhor vai entrar no lugar do Leônidas. Tem dez minutos pra mostrar o que sabe.”
Do Leônidas... logo do Leônidas... pô, mas o cara podia ter botado um reserva no lugar do Leônidas e me posto no meio dos suplentes. Logo do Leônidas... Eu, substituindo o craque do time... A cabeça do jovem fervilha, incandesce, mas o menino logo consegue voltar à razão. Pensa, “dez minutos é nada, se eu ficar tocando bolinha aqui não vai acontecer nada. Tenho que mostrar mais do que isso”. O menino já tem a idéia exata do que tem que fazer. Nisso, recebe a primeira bola.
O garoto ajeita, livra-se do primeiro marcador. Tem um bom espaço à frente. Arranca. Valido pede. Não. A bola é minha, deixa ela comigo. O menino segue, outro zagueiro vem na cobertura. Leva uma caneta. O menino não solta a bola nem a decreto. A arrancada é cortante, em diagonal, a bola sempre grudada em seu pé. Já está na área. Só o goleiro à frente. O keeper sai do gol, esbaforido. O menino meneia o corpo e põe o arqueiro no chão. Gol vazio. Toquinho. Palmas, muitas palmas. “Aê, garoto!”
Bola seguinte. É, tem essa coisa de sorte. Sorte nada, quer ver? O garoto recebe, gruda de novo a bola no pé e recita mais uma vez sua arrancada em diagonal, cerzindo a defesa adversária. Entra na área, o goleiro à sua frente de novo. Dessa vez fica no gol. O menino não vacila, manda uma bomba no canto. Outro gol, mais palmas. Flávio Costa, marcial, não esboça qualquer reação. Mas sorri discretamente.
Termina o treino. Flávio chega no garoto, “passe aqui amanhã, no mesmo horário.” É a senha, o menino está aprovado no teste. O sonho de jogar no Flamengo começa a virar um esboço, um rascunho de algo palpável, tangível. O jovem se despede de Flávio. Quando já vai virando as costas, o treinador pergunta: “mas qual o seu nome?”, “é Tomás, sim senhor”. E Tomás volta a tomar o rumo de casa, onde irá contar à turma de Niterói sua aventura na Gávea. O menino Tomás, o pequeno Tomás, o Tomazinho da turma das peladas, o Zizinho pro pessoal mais chegado.
E que, muito em breve, será o Zizinho do Flamengo.
segunda-feira, 28 de março de 2011
Hermínio Correa
Parece profético: "O Flamengo é maior que tudo e todos"
"Papai, eu tenho nojo deles".- Eu também tenho filho...
Será que vale pedir para a Nação respeitar diretoria e jogadores?
A imortalizada camisa 12 é agora a torcida das vaias invariáveis. Vaia burra, aquela que existe por existir. E essa mesma torcida, que antes abraçava o time, que instigava o perna de pau a compensar sua falta de técnica com raça, hoje dá de ombros a decência e esperneia por um ídolo.
Pense por um minuto: Você colocaria Adriano, ao lado de Zico, Evaristo, Leandro, Reyes, Junior, Dida, Rondinelli, Valido?
A torcida do Flamengo precisa parar e se reencontrar em sua essência. Precisa abandonar as pedras, largar a crítica vazia e ser ela o elo de força necessário. Mais do que zagueiro, atacante, lateral ou técnico novos: O Flamengo precisa reencontrar a força que só existe quando time e torcida caminham juntos.
Sem isso, o Flamengo sempre estará em crise.
Grande Abraço, até segunda e Saudações Rubro Negras, sempre!
Twitter: @herminio_correa
sábado, 26 de março de 2011
Breves comentários sobre a novela Adriano:
1- O cara não é mercenário nem traíra, tentou voltar, mas o Flamengo não quis. Ponto final.
2- A diretoria e o técnico tem todo direito em fazer suas escolhas e opções. Se não acham que os problemas do Adriano compensam a sua qualidade, é coerente que não o queiram. O que não significa que necessariamente estejam certos, ou que eu concorde com isso.
3- Como o Adriano é imprevisível, eu não arrisco uma opinião definitiva, se o Flamengo agiu ou certo ou errado. Infelizmente o julgamento disso será algo meramente emocional, condicionado aos resultados. Se ele foi bem no Corinthians, a corneta vai tocar; se o Flamengo continuar ruim de artilharia, a gritaria vai ser geral; se o Fla-Luxa prosseguir "sem freio" e ganhando títulos, a pressão vai ser menor, ou se o Adriano aprontar das duas lambanças em Sampa, aí a Diretoria vai poder dormir tranquila.
4- Eu acho simplesmente irritante a parcialidade da imprensa: se o Adriano vem pro Flamengo, é gordo, bandido, depravado e decadente; se vai pro Corinthians, é supercraque, artilheiro e indispensável.
sexta-feira, 25 de março de 2011
MARIO FILHO, O CRIADOR DAS MULTIDÕES
EXPOSIÇÃO NO CRJ DO PAVÃO/PAVÃOZINHO
COLUNA DE SEXTA-FEIRA - André MonneratAdriano no Corinthians. E agora?
Não preciso mais escrever por que eu não era a favor mesmo do retorno de Adriano ao Flamengo. Se ele não vem, eu apoio a decisão, acho que é isso aí mesmo. E, me pensando assim, não teria por que me sentir mal com sua provável (ao contrário do que eu imaginava) contratação pelo Corinthians, certo? Bem, mais ou menos.
Também já escrevi sobre a pressão que sofriam Luxemburgo e Patrícia Amorim pela contratação, e como seria difícil enfrentá-la. Pois bem: eles que se preparem para o que virá em seguida.
As atuações, daqui por diante, estarão sempre sendo comparadas com o desempenho do time com Adriano. Não falo do Corinthians com Adriano; se este der certo, claro, ficará pior para quem está na Gávea, mas isso não é determinante. Estou falando das comparações com o que seria o Flamengo com Adriano - e não com o Adriano real, mas com um Adriano ideal, que certamente destruiria todo mundo se tivesse voltado para ser feliz em seu time de coração. Se o real ainda danar de fazer um bom papel no Corinthians, motivado a provar o erro das pessoas ruins que não quiseram contratá-lo, pior ainda.
E é também com este Adriano ideal que serão comparados todos os atacantes que forem escalados no Flamengo daqui pra frente. Qualquer gol que eles perderem, podem crer, o Adriano faria. Se não arrebentarem, e com o time vencendo, suas vidas ficarão bastante difíceis. Uma recuperação de Deivid no Flamengo, por exemplo, que antes já parecia complicada, agora virou trabalho de Hércules.
É isso: não acho que seria bom se Adriano viesse, mas a vida sem ele também não será simples. À torcida, esta entidade incontrolável, não adianta muito pedir paciência. Então, Luxemburgo, na boa: nunca fui seu fã, não simpatizo muito contigo, mas dê seu jeito de ganhar tudo o que vier pela frente. Se não, você não vai durar muito tempo. E eu não tava muito a fim de ver Joel Santana de volta ao Flamengo.
* * * * * * * * * *
Por circunstâncias do mercado, o Flamengo está prestes a ver entrando em seus cofres uma grana violenta. Não sei como vai acabar toda essa novela envolvendo Globo, Rede TV, Clube dos 13, CADE e todos os etcéteras; mas sei que, independente do resultado, o Flamengo vai ter um enorme aumento em sua arrecadação com venda de direitos de transmissão de seus jogos. E que, muito provavelmente, em algum momento pingará na conta do clube um adiantamento substancial deste dinheiro.
Patrícia, mantenha a cabeça no lugar. Se a negativa do Adriano é em nome de um "projeto", de um Flamengo mais sério e tudo o mais, fique com isso em mente na hora de usar este dinheiro. Não vá gastar tudo tentando dar uma satisfação a quem hoje chora por Adriano. Há um CT a construir, há dívidas de curto prazo a serem equacionadas. Resolvendo elas, não só o dia-a-dia do clube ficará mais tranquilo, mas também os enormes gastos com juros de empréstimos tomados todos os anos em condições adversas para tapar buracos irão diminuir bastante, e o dinheiro vai sobrar mais na frente.
Você realmente está tendo a chance de deixar, ao final de seu mandato, um Flamengo bem melhor do que encontrou. Não desperdice.
- ANDRÉ MONNERAT também escreve no SobreFlamengo (www.sobreflamengo.com.br, facebook.com/sobreflamengo e twitter.com/sobreflamengo)
quarta-feira, 23 de março de 2011
O futebol, a televisão e assuntos correlatos
*Por Pedro Migão, do Ouro de Tolo
Texto I:
http://pedromigao.blogspot.com/2011/02/televisao-liga-de-clubes-e-o-brasileiro.html
Texto II:
http://pedromigao.blogspot.com/2011/02/televisao-liga-de-clubes-e-manobras-de.html
terça-feira, 22 de março de 2011
Saudações flamengas a todos. Empate chocho, atuação apática, treinador mexendo mal e dando esporro pra disfarçar, cornetas inflamando, alguns veículos de comunicação insistindo em continuar alimentando a lengalenga Adriano. Esse é o nosso Flamengo, agitado, mesmo tranqüilo... Obama? Hã? Vem pra qual posição? Já joga domingo? Ah, aproveito para dar os parabéns à turma das Laranjeiras. Virar freguês do Boavista de Bacaxá não é pra qualquer um. Mas chega de lorota. Falei de corneta aí em cima. Essa semana, conto uma história de um sujeito que exacerbou seu flamenguismo de tal forma que transbordou inclusive os limites do que se convencionaria chamar de bom senso. Um louco. Mas um dos grandes da nossa riquíssima história. Boa leitura. Bicampeão, na bola e na audácia
1943. Uma das poucas unanimidades no início da temporada é o amplo e ostensivo favoritismo do Flamengo para a conquista do título carioca. Com efeito, a equipe que ganhara o campeonato de 1942 agora está mais encorpada, mais madura (mais “encaixada”, como se diria nos dias de hoje). É verdade que não há mais o atacante Valido, que se aposentara para montar uma gráfica, mas o time dirigido por Flávio Costa continua uma verdadeira seleção, um dos melhores da história flamenga. Nomes como o goleiro Jurandir, os médios Biguá e Jaime, os atacantes Pirilo e Perácio, o grande ponta-esquerda Vevé (extremamente talentoso), e principalmente as estrelas Zizinho e Domingos da Guia formam a base de uma equipe fortíssima, quase impossível de ser batida. E, com a fase de transição vivida pelo Fluminense, o time ainda muito jovem do Vasco, as crises políticas do Botafogo e a irregularidade do América, poucos acreditam que o Flamengo deixará escapar a chance de conseguir o bicampeonato. A conquista, sem maiores dificuldades, de um Torneio Municipal disputado na pré-temporada reforça ainda mais essa impressão.
Começa o Carioca e o Flamengo já mostra as credenciais, ao passar por cima do Botafogo (4-1). Mais algumas vitórias e a liderança já sorri, aconchegante, para o rubro-negro (o campeonato é disputado em pontos corridos). Mas logo virão os percalços. Tudo começa numa partida contra o América, em que o Flamengo, desconcentrado, atua mal e é derrotado (1-2). Contudo o pior não é o revés (o time segue na liderança), mas a perda do médio argentino Volante. Já veterano, Volante atua na faixa central, imediatamente à frente dos zagueiros, exibindo notável senso de marcação e cobertura. É o ponto de equilíbrio do sistema defensivo. Atua de forma tão característica e peculiar que seu nome virará símbolo da posição. Mas, ao se contundir na partida contra os rubros, Volante resolve, do alto de seus 33 anos, encerrar a carreira. A perda de Volante é imediatamente sentida. O time perde harmonia, a elogiada linha defensiva do Flamengo se esfarela, jogadores como Artigas e o improvisado Quirino não são capazes de devolver o equilíbrio no meio-campo. O efeito logo se faz sentir no campo. Em cinco jogos, o rubro-negro empata quatro e vê a perigosa aproximação de Fluminense e do surpreendente São Cristóvão. O Flamengo parece prestes a perder o campeonato mais fácil de sua história. Algo precisa ser feito. Urgente. É então que surge o imponderável. Surge Ary Barroso.
Compositor de várias canções célebres, Ary é figura atuante no cenário artístico brasileiro. Mas é como locutor esportivo de rádio (“espíquer”) que Ary se torna conhecido, comentado, execrado e exaltado, quase uma celebridade. Ocorre que o autor de Aquarela do Brasil jamais esconde seu passional amor pelo Flamengo. E faz absoluta questão de deixar isso claro em suas transmissões. Narra as partidas rubro-negras como verdadeiras epopéias do “bem contra o mal”. Em ataques adversários, solta pérolas como “ai meu Deus, não quero nem ver!”, ou “a cidadela dos nossos heróis está em perigo”. Isso quando esses tipos de lance são narrados. Não é raro Ary largar o microfone diante de uma jogada inimiga e somente retomar a transmissão após o perigo ter passado, ou o pior ter acontecido. Irreverente e inovador, Ary sopra uma gaitinha de plástico, dessas de brinquedo, diante de um gol. Ao invés do tradicional grito (gooool), é a gaitinha firili-firiliu que irrompe nas transmissões. E se for gol do Flamengo, a gaita rebenta nervosa por um tempo interminável, apitando como um hino, anunciando ao mundo que o scratch rubro-negro acaba de assinalar mais um tento.
Mas a relação de Ary com o Flamengo transcende a prosaica figura do espíquer irreverente, amado e odiado. Ary participa ativamente do cotidiano do clube, freqüenta a sede, conhece dirigentes e conselheiros, opina ativamente na contratação de jogadores, inclusive no ar. Tornara-se célebre sua perseguição ao atacante Pirilo, contratado para substituir o polêmico Leônidas, negociado por conta de sua indisciplina indomável. Ocorre que Ary era fã incondicional do Diamante Negro, e não perde oportunidade para cornetar Pirilo. Não importa que Pirilo seja o artilheiro máximo do Flamengo, “se fosse Leônidas teria feito ainda mais gols”. A cisma, que se torna quase pessoal, só irá cessar algum tempo depois. Preocupado, como todos os rubro-negros, com a queda de rendimento da equipe, Ary Barroso vai participar de um espetáculo no Paraguai. Lá, encontra-se com um amigo, e num momento de folga vai assistir a uma partida do campeonato local. Impressiona-se com o que vê em campo. Enlouquece com a atuação de um jovem médio, que se destaca dos demais de uma forma despudorada, até imoral. “O Flamengo precisando tanto de um médio, e esse sujeito aqui, esmerilhando a bola em campo. Não, algo precisa ser feito”. “É, o time deles topa vender, inclusive o Fluminense já andou sondando”. “De jeito nenhum, ele vai pro Flamengo. E é esse ano. Não, é agora. É já!”
Terminada a partida, Ary vai ter com o jogador, que se empolga com a ideia de atuar no Brasil. Apressado, interrompe a temporada de shows, aluga um tecoteco, põe o sujeito debaixo do braço e praticamente “seqüestra” o atleta. Cena de filme. Ao descer do avião, o paraguaio calça meião e chuteira e vai treinar. Tem Fla-Flu domingo, e o cabra já tem que ser escalado. É o homem que vai resolver o problema da meia-cancha. Senhoras e senhores, chegou Modesto Bría. Enquanto a diretoria flamenga resolve, às pressas, com o Nacional-PAR a situação contratual de Bría, Ary insiste com Flávio Costa que o cara é bom, que joga bola, que é craque, que vai resolver o problema. O mau humor de Flávio (normalmente avesso a esse tipo de intervenção) logo se esvai ao primeiro contato de Bría com a bola. Os olhos do treinador brilham, as mãos se esfregam. Não é possível, Bría é ainda melhor que Volante. Marca tão bem quanto o argentino, mas possui técnica refinada, um passe primoroso e ainda chega à frente como homem surpresa. Mas isso é uma pérola, um diamante. O Flamengo, agora, está ainda mais forte que no início da temporada.
Com Bría em campo, o Flamengo transforma o que seria um final emocionante em um passeio no parque. É verdade que empata o Fla-Flu (2-2), mas a seguir começa o baile. Enfia 5-1 no Bonsucesso, depois vai a General Severiano e mói o Vasco dos jovens Ademir, Chico, Isaías & Cia, empurrando 6-2, SEIS a dois, no cruzmaltino, até hoje a maior surra flamenga aplicada no lombo vascaíno. Na última rodada, basta cumprir o protocolo com mais uma amassada, dessa vez 5-0 no Bangu. O Flamengo é o bicampeão carioca. Estava escrito. Estava cantado. Modesto Bría formaria com Biguá e Jaime a mais famosa linha média da história do Flamengo, uma linha até hoje lembrada pelos mais velhos em suas histórias e escritos. Bría, após encerrar a carreira, iria se tornar treinador e mais tarde olheiro das divisões de base. O paraguaio jamais deixou de trabalhar no Flamengo. E assim se completa a história do campeonato de 1943. Uma conquista que parecia vir tranqüila, sem maiores dissabores, mas, bem à maneira flamenga, ameaçou virar drama, e se resolveu de uma forma bizarra, emocional, pouco convencional, aos tropicões. Um campeonato bem à feição de uma das mais peculiares figuras da trajetória flamenga. Polêmico, irreverente, passional, louco, encrenqueiro, “homem da gaita”, Ary Barroso recebeu vários adjetivos ao longo de sua vida. Mas, talvez a alcunha que mais se encaixe ao perfil desse mirrado mineiro de Ubá seja desconcertante por sua simplicidade, e pela capacidade de tão bem defini-lo. Ary Barroso era, antes de tudo, Flamengo.









