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terça-feira, 19 de abril de 2011

Alfarrábios do Melo


Saudações flamengas a todos. Seguindo sua tradição de se recusar a seguir roteiros lineares, o Flamengo terá à sua frente um Fla-Flu decisivo, pelas Semifinais da Taça Rio. Melhor assim. Esse time tem dado respostas mais interessantes em jogos teoricamente mais difíceis.


Mas antes tem Copa do Brasil. E essa semana deixo a segunda parte da história da conquista de 2006. A primeira parte está aqui. Na área em negrito, link para vídeo. Então, boa leitura.

Copa do Brasil 2006 – Parte II


A convincente vitória contra o ABC devolve à Gávea um ambiente de tranqüilidade e otimismo há muito tempo ausentes. Com efeito, apesar da fragilidade do adversário, a forma como o time se impôs na partida dá a todos a sensação de que o trabalho de Waldemar Lemos possui boas perspectivas de dar frutos. E nas Oitavas de Final o adversário será o tradicional Guarani, de Campinas.

O Bugre campineiro vive uma das mais caóticas fases de sua existência. Mergulhado em graves dificuldades financeiras, o time amarga o recente rebaixamento para a Segunda Divisão do futebol paulista. A equipe, recheada de juniores e jogadores inexpressivos, tem como principais nomes o veterano Zé Elias, ex-Corinthians, e o lateral-direito Mariano, que anos mais tarde irá se destacar no Fluminense. Fragilizado e em crise, o Guarani é o adversário ideal para um Flamengo que novamente se permite vislumbrar dias melhores.

E a torcida, percebendo o bom momento que se aproxima, comparece em bom número, 17 mil ao Maracanã, para a primeira partida. O time é basicamente o mesmo que venceu o ABC, tendo como novidade a volta de Diego Souza. Contundido, Ronaldo Angelim cede a vaga ao contestado Fernando, o lateral Juan segue barrado, e a revelação Vinícius Pacheco finalmente se firma no ataque. Mas nenhum desses jogadores, nem os elogiados Renato, Jônatas, Leonardo Moura e Luizão, será o nome mais comentado ao final da partida no Maracanã. O grande fato novo do primeiro semestre de 2006 estará sentado no banco, aguardando sua vez. Chegou a hora de Obina.

O baiano Obina volta a ser relacionado para o banco de reservas em função de uma contusão do Tigre Ramirez. Contratado em 2005, após explodir no Vitória (um dos principais artilheiros do Brasileiro-04), até começa bem no Flamengo, com bom número de gols (o mais importante nos 2-1 sobre o badalado Santos de Robinho), mas vai afundando diante da péssima fase da equipe. Para piorar, Obina se acomoda com o mau momento, engorda e seu futebol, que depende muito da forma física, some de vez. Fora de forma, suas limitações técnicas são ainda mais expostas, o que acentua a irritação da torcida, que o elege um dos culpados pela deprimente campanha no Brasileiro-05. É encostado e colocado fora dos planos. A Ponte Preta sonda, o negócio evolui, mas Joel Santana resolve apostar no baiano, colocando-o no banco. Vem o gol salvador contra o Paraná e o início da fama de predestinado. Mas em 2006, Obina segue preterido por Waldir Espinoza, e somente com a chegada de Waldemar Lemos o baiano volta a dispor de algumas oportunidades.


O Flamengo já vence o Guarani por 2-0, com gols de Luizão (em bela cabeçada) e Leonardo Moura (aproveitando bonito passe de Renato). Luizão sente mais uma de suas intermináveis contusões e sai de campo. É a vez de Obina, que dentro de campo assiste a Fernando cometer mais uma de suas pixotadas, permitindo ao Guarani reduzir a desvantagem. Mas é apenas um susto. Muito melhor e soberano em campo, o Flamengo continua apertando e chega ao terceiro gol com Renato, em uma devastadora cobrança de falta. Fim do primeiro tempo, Flamengo 3-1.

Na segunda etapa, o Flamengo continua apertando, quer resolver logo a classificação, o jogo está muito fácil. Cria chances, perde gols, vai desenhando a goleada diante de um adversário apático e entregue. É quando o imponderável, o inesperado, o inusitado resolve transformar aquela que seria apenas mais uma goleada num momento antológico, especial, esotérico até.

Nove minutos. O Flamengo evolui pelo lado direito do ataque, vem o cruzamento, bola à meia altura, sem muita força, em direção a Obina. O baiano arruma o corpo, a bola dócil se oferece, Obina está totalmente livre, empolga-se, inclina-se e prepara o voleio. O estádio se levanta, todos pressentem que a jogada nada terá de banal. Obina, o renegado, o rejeitado, o encostado, vai marcar de bicicleta, vai escrever com letras maiúsculas e douradas seu nome na história do sacrossanto templo Maracanã. Mas algo dá errado...

Às vezes é tênue a linha entre o divino e o picaresco, o mágico e o farsesco. O nirvana de Obina se esfuma quando as atrapalhadas pernas do baiano se embolam e a bola é duramente golpeada pela canela do camisa 18. Envergonhada, a pelota sobe, e sobe, e sobe, foge daquele momento constrangedor. A platéia resigna-se em muxoxos e risos. Mas o enredo ainda não termina. Exaurida pela força da gravidade, a bola volta ao campo de batalha e se torna objeto de uma luta de esbarrões, sopapos e empurrões, até ser novamente atingida por um cambaleante Obina, que se esbarra aos trambolhões fazendo a redonda seguir uma errática trajetória de fliperama até que, por um insondável desígnio místico, vai parar dentro do gol, muito a contragosto. Estupefata, a torcida não sabe como reagir, dado o inacreditável desfecho do lance. Até que explode em risadas e se põe a gritar o nome do intrépido Obina, de forma irônica. Mas a partir dali, exatamente daquele momento, irrompe o embrião de uma nova relação entre Obina e a Nação Flamenga, que nunca mais será a mesma. Surge o anti-herói, o Cantinflas, o novo Fio, a figura que irá, com seu carisma às avessas, reaproximar o Flamengo de sua Nação, numa relação de amor, rejeição, afeto e desprezo que irá durar alguns anos. No dia seguinte, nas semanas seguintes, nos meses seguintes, em cada boteco, cada esquina, a última do Obina será assunto de alguma roda de papo flamenga. Começa a surgir a figura do xodó. Tudo por conta do chapliniano lance do quarto gol flamengo.

O Flamengo ainda consegue mais um gol, numa bela jogada de Juan (que entrara na segunda etapa), que responde às vaias da torcida da melhor forma e começa a mostrar o futebol dos tempos do Fluminense. Com a vitória de 5-1, o rubro-negro viaja tranqüilo a Campinas para a partida de volta. Alterado por Waldemar, o time nitidamente se poupa, é derrotado (0-1) em partida de nível técnico sofrível, que poderia ter outro desfecho se a equipe contasse com um pouco mais de sorte (e vontade). Mas não importa, a vaga nas Quartas de Final está atingida.

Assim, a Copa do Brasil começa a afunilar, somente restam oito equipes. Além do Flamengo, seguem os tradicionais Fluminense, Vasco, Cruzeiro, Santos, o azarão Volta Redonda e a grande surpresa da competição, o Ipatinga, que trucidou o Botafogo com dois chocolates (3-0 e 3-1). Além desses, o próximo adversário do rubro-negro é um velho conhecido, coadjuvante e freguês de inúmeras jornadas decisivas, das quais invariavelmente sai derrotado e atribui o insucesso aos mais criativos fatores, exceto ao mais óbvio, sua inferioridade diante do Flamengo.

Sim, o Atlético Mineiro está novamente no caminho.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Alfarrábios do Melo

Saudações flamengas a todos. Essa semana quero começar a relembrar mais uma conquista recente, um título que simbolizou o fim de uma era de caos. Essa é a primeira parte. Em negrito, links para vídeos. Boa leitura.

A Copa do Brasil de 2006 – Parte I


2006. Vivendo um dos piores períodos da sua história, os chamados “anos de chumbo”, um inferno astral iniciado no segundo semestre de 2001 e que por quatro vezes quase culminou no rebaixamento à Segunda Divisão, o Flamengo busca, enfim, esboçar alguma reestruturação no seu caótico Departamento de Futebol. Com a pacificação das suas mais atuantes correntes políticas, o clube conseguiu forças para escapar de forma sobrenatural de um descenso já tido como certo. Agora, é olhar para a frente e tentar montar um conjunto mais competitivo.

A base do ano anterior é mantida, saindo apenas o veterano meia Souza. Os pilares são o habilidoso lateral Leonardo Moura, os volantes Jônatas e Diego Souza e o meia Renato Abreu, coadjuvados pelo razoável zagueiro Renato Silva, o voluntarioso atacante Ramirez e o irregular goleiro Diego. Além deles, os contestados Fernando, Fellype Gabriel e Júnior completam a estrutura de um time que Joel Santana, tido como acabado para o futebol, conseguiu ligar e tornar vencedor nas últimas rodadas do Brasileiro. Agradecido pela oportunidade, Joel aceita uma proposta do Vissel Kobe, time japonês da Segunda Divisão.

Para o lugar de Joel, o Flamengo aposta em outro treinador em baixa, o experiente Valdir Espinoza. Também chegam o irrequieto lateral Juan (destaque no Fluminense), os volantes Marabá e Rodrigo (expoentes do rebaixado Paysandu), o zagueiro Ronaldo Angelim (eleito melhor zagueiro do Brasileiro-05, pelo Fortaleza), o meia uruguaio Peralta, o meia Toró (outro ex-tricolor) e a principal atração da temporada, o rodado atacante Luizão. Com a promoção de vários juniores, dos quais os maiores destaques são Vinícius Pacheco, Fabiano Oliveira, Egídio e o volante Rômulo, acredita-se que o elenco está mais bem servido que no fatídico ano anterior.

Mas um grave erro de planejamento quase põe o primeiro semestre a perder. O Flamengo resolve disputar a Taça Guanabara com uma equipe de juniores, enquanto o elenco principal realiza uma pré-temporada completa. Os garotos afundam em derrotas contra times inexpressivos, e às pressas os titulares são escalados para os jogos restantes do primeiro turno. A eliminação precoce torna bastante instável a situação de Valdir Espinoza, cada vez mais contestado pela imprensa, pela torcida e por setores da diretoria. Nesse contexto, o clube estréia na Copa do Brasil contra o perigoso ASA, de Arapiraca-AL.

A despeito de sua pouca expressão, o ASA já eliminara o poderoso Palmeiras alguns anos antes. Ousada, sua diretoria apregoa que irá repetir a dose contra um Flamengo fragilizado. A primeira partida é no acanhado estádio Coaracy da Mata. Confuso e inseguro, o Flamengo é amplamente dominado pelo time local, que logo no início abre a contagem e desperdiça várias oportunidades. Na segunda etapa, o rubro-negro consegue equilibrar, e aproveitando-se do recuo alagoano, chega ao empate meio no abafa, num escanteio em que a bola é escorada por Luizão e sobra para Ronaldo Angelim (que entrara no lugar de Fernando) emendar desajeitado. A duras penas, o Flamengo sai de Arapiraca com um suado 1-1.

Espinoza ganha uma sobrevida, e parece finalmente encontrar seu rumo quando o Flamengo, em grande atuação, vence o badalado Botafogo de virada (3-2). Mas, no jogo seguinte, uma derrota para o Madureira (2-3), numa noite infeliz do goleiro Diego, sela o destino do treinador. Para seu lugar, chega Waldemar Lemos, velho conhecido do elenco.

O nome de Waldemar agrada à torcida, em função do bom trabalho no final do Brasileiro-03, quando conduziu uma equipe bastante limitada, desestruturada e desunida a um relativamente honroso 8º lugar. Mas o irmão de Oswaldo de Oliveira terá alguns problemas a resolver. Diego tem falhado mais do que o aceitável. Juan ainda não emplacou, já começa a ser perseguido pela torcida e chega a ser barrado pelo limitadíssimo ex-júnior André. Jônatas e Júnior tentam impor na marra uma liderança, chocando-se com Renato. Diego Souza está gordo, desmotivado e em péssima fase. E até o Tigre Ramirez já anda às turras com parte do elenco. Além disso, o time não encaixa, há poucos titulares definidos e o esquema muda a cada partida. Enfim, uma verdadeira zona.

Evidentemente, são problemas que não serão resolvidos em apenas uma semana, tempo de que Waldemar dispõe para o jogo de volta contra o ASA. Mesmo assim, o treinador, fiel a suas características, escala uma equipe bastante ofensiva, com apenas Jônatas como volante, Renato na ligação e dois meias (Fellype Gabriel e Peralta). O resultado inicial é desastroso. O ASA ignora o Maracanã, encara o Flamengo de igual para igual e sai na frente, gol do exótico atacante Cascata. Com a perspectiva do vexame, o time mostra vergonha na cara, supera a bagunça e parte pra dentro do adversário na raça. Começa a perder um gol atrás do outro, até que Renato vai bater uma falta, chuta forte e torto, mas a bola desvia na cabeça de Renato Silva e entra. É o empate. Embalado, o Flamengo segue em cima, acua o ASA e tem seu esforço recompensado, quando Peralta recebe na entrada da área, vem na corrida e fuzila sem chances para o goleiro alagoano. Flamengo 2-1. No segundo tempo, o ASA se descontrola e tem dois jogadores expulsos, facilitando o trabalho flamengo. A vaga para a Segunda Fase está garantida, para alívio geral. O próximo adversário é o ABC de Natal, que vive péssimo momento.

E a Copa do Brasil será a tábua de salvação do semestre, porque o time acaba eliminado também da Taça Rio, numa das piores campanhas de sua história. No meio do caos, já há quem peça a cabeça de Waldemar. Cauteloso, o treinador vai a Natal com um time mais defensivo, três volantes (Júnior, Diego Souza e Jônatas). Juan é novamente barrado e Angelim enfim ganha a vaga de titular. Mais consistente e equilibrado, o Flamengo faz boa partida e vence merecidamente por 1-0 em noite chuvosa, com mais um gol salvador de Angelim (um belo peixinho), já no final do jogo.

Fiel à sua política de contratações, a diretoria aproveita o intervalo de 15 dias sem jogos e traz mais alguns nomes para compor o elenco, o volante Léo, o atacante Deni (revelações do Nova Iguaçu) e o grandalhão volante Goeber, do Guarani. Léo já estréia contra o ABC no Maracanã, no lugar do contestado Júnior. Outra novidade é a entrada de Vinícius Pacheco no lugar de Peralta, barrado após sistemáticas vaias de uma torcida irritada com seu comportamento extracampo (visto bebendo e fumando num bar do Rio).

Em sua melhor partida no ano, o Flamengo finalmente desencanta e goleia o frágil ABC com extrema facilidade, 4-0 em um jogo que poderia terminar tranquilamente sete ou oito. Os gols são de Renato (em belo chute), Luizão (numa cabeçada esquisita), Ramirez (aproveitando um bate-rebate) e novamente Renato (de pênalti). Mas o destaque negativo é a inacreditável quantidade de gols perdidos por Luizão e especialmente Vinícius Pacheco, que consegue perder oportunidades em cascata, demonstrando uma afobação poucas vezes vista em um jogador profissional. Mas, de qualquer forma, o Flamengo enfim faz as pazes com uma vitória maiúscula e Waldemar ganha tranqüilidade para trabalhar. Vai começar o Campeonato Brasileiro, que será utilizado para ajustar o time para a Copa do Brasil. O próximo desafio já é mais duro, o Guarani.

Mesmo com os visíveis sinais de melhora, o time ainda é visto com desconfiança por uma torcida ainda temerosa. Mas o que pouca gente sabe é que, a partir do confronto seguinte, entrará em cena um personagem até então esquecido, largado pelos cantos da Gávea, praticamente ignorado por todos. Mas, como uma fênix, o sujeito emergirá da obscuridade e do anonimato para ser o fator de restabelecimento de uma relação fragilizada, o herói ungido a fazer a Nação Rubro-Negra voltar a berrar por seus heróis, arrancando do peito um rugido que irá reverberar por todo um país, tornando a fazer do Flamengo uma força de caráter singular.

Predestinado, Obina aguarda sua hora.

Flamengo Net

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