Um
dos maiores ídolos da história do Flamengo chegou ao clube em 1936,
após passagens por Vasco, Botafogo e Peñarol, além do Bonsucesso,
onde iniciou a carreira (e chegou à Seleção Brasileira). Marrento
e muito encrenqueiro, acumulou gols, idolatria e muitas confusões
por onde passou, e evidentemente no Flamengo conseguiu amplificar
todos esses atributos. Principal responsável pelo histórico título
de 1939, onde o Flamengo quebrou o maior jejum de sua história (12
anos), Leônidas ajudou a fazer da sua já numerosa torcida uma
Nação. Tratado como estrela, sabia de sua condição diferenciada,
e a utilizava para negociar contratos e participações em amistosos.
Quando os termos da sua remuneração não lhe pareciam adequados,
sempre surgia uma conveniente contusão para prolongar a negociação.
Mas, com o tempo, as idissincrasias de Leônidas começaram a cansar
a torcida e, principalmente, os dirigentes, especialmente após a
perda do campeonato de 1940. Já no início de 1941, Leônidas sofreu
séria contusão no joelho e foi obrigado assim mesmo a atuar em um
amistoso (no qual andou em campo e o time levou de sete). Mesmo com a
comprovação da gravidade da lesão, a diretoria cansou de seu
comportamento e o negociou apressadamente com o São Paulo, numa
transação extremamente rumorosa e que causou revolta entre os
torcedores (notadamente Ari Barroso). O Diamante Negro foi ídolo no
clube paulista, mas o Flamengo, mais apaziguado e unido, partiu para
seu primeiro tricampeonato.
Um
dos maiores zagueiros (talvez o maior) da história do futebol
brasileiro rapidamente se apaixonou pelo Flamengo quando chegou em
1936. Futebol clássico, refinado, quase incompatível para a função
que igualmente exercia com rara maestria, Domingos conseguiu a proeza
de ser campeão na Argentina, no Uruguai e no Brasil. Pelo Flamengo,
foi protagonista nas conquistas de 1939, 1942 e 1943. Era o maior
ídolo de um time estelar (um dos melhores da história flamenga),
quando uma proposta milionária do Corinthians fez com que o Flamengo
o negociasse. Os altos valores e a já avançada idade de Domingos
amenizaram a dor da perda, ainda assim muito forte. No Corinthians
foi ídolo, mesmo sem conseguir repetir a passagem gloriosa pelo
rubro-negro. E no Flamengo, sua ausência foi sentida demais, sendo
um dos fatores para que a conquista do tricampeonato em 1944 fosse
ainda mais sofrida e árdua.
Integrante
do famoso Expresso da Vitória vascaíno, Jair desentendeu-se com a
diretoria cruzmaltina e em 1947 se transferiu para o Flamengo, onde
teve passagem breve, mas marcante. Em um período pobre em
conquistas, destacou-se com seu futebol leve e seu chute venenoso
(especialmente exibido no célebre amistoso em que o Flamengo
derrotou o Arsenal por 3-1). Entretanto, em um clássico com o Vasco
em 1949 o rubro-negro vencia por 2-0, e Jair recebeu um lançamento
limpo, mas, sozinho diante do goleiro adversário, perdeu um gol
inacreditável. O lance revigorou o adversário, que se motivou para
buscar a virada e a goleada (2-5). Revoltada, a torcida passou a
queimar camisas no estádio, no que se tornou célebre como “o jogo
das camisas queimadas”. Após o jogo, espalhou-se a lenda de que
Jair teria atuado de corpo mole. Sem clima para continuar no clube,
Jair foi negociado em termos apressados com o Palmeiras, onde foi
multicampeão e ídolo. Ainda teria passagem vitoriosa também pelo
Santos. E o Flamengo, ainda mais carente de craques, demoraria um
pouco para montar um time competitivo.
O
maior craque flamengo antes do surgimento de Zico foi negociado
contra a vontade, em um episódio triste e lamentável. Os
presidentes de Flamengo e Bangu discutiam amenidades, quando o
dirigente flamengo comentou algo sobre o fato de nenhum jogador do
clube ser inegociável. Esperto, o cartola banguense pressionou, e
conseguiu arrancar um compromisso de venda de Zizinho. Dessa forma, o
maior ídolo da época, o melhor jogador brasileiro em atividade,
aquele que se tornaria o craque da Copa do Mundo de 1950 acabava de
sair do seu clube de coração, indo jogar no modesto Bangu, onde se
destacou a ponto de ter sua convocação para o Mundial de 1954
pedida por muitos (era o melhor jogador brasileiro na época).
Sintomática foi sua primeira exibição contra o ex-clube, onde, em
uma das maiores atuações individuais da história do Maracanã,
quase fez nevar na goleada de 6-0, um crime passional contra seu time
de um coração apunhalado e sangrado. Zizinho encerraria a carreira
no São Paulo, onde igualmente brilhou. E o Flamengo seguiria por
mais anos delicados.
O
maior, melhor, mais vitorioso, mais idolatrado, principal artilheiro
e referência do Flamengo foi negociado em 1983, logo após a
conquista do tricampeonato brasileiro (a transação já estava
amarrada antes). O rubro-negro não queria perder a oportunidade de
auferir lucro com sua saída (dali a dois anos Zico receberia passe
livre) e não dificultou o assédio da Udinese. Consumada a saída, a
Gávea viveu dias de fúria, choro e catarse coletiva poucas vezes
possível conceber em uma organização esportiva. O efeito foi tão
contundente que o time esfarelou-se, passando a perder jogos tolos, a
ser goleado por rivais muito mais fracos, a atuar em um Maracanã às
moscas. Nem a renúncia do presidente que ancorou a negociação foi
suficiente para aplacar a fúria e a histeria coletiva. Zico teria
boa passagem pelo clube italiano, atrapalhada pela fragilidade da
equipe. O Flamengo somente retomaria o caminho dos títulos e das
conquistas após o retorno do Galinho, em 1985.


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