sexta-feira, 19 de maio de 2006



"Que Torcida é Essa...."

Ir ao Maracanã na torcida do Flamengo numa noite como a de ontem não é meramente torcer para um time. É entrar em campo e decidir o jogo.
Quem foi ao jogo ontem, sabe do que eu estou falando. Não vou me ater ao jogo em si ou ao time do Flamengo propriamente dito, que por sinal não jogou nada, com um esquema retrancado, deixando-se dominar quase que inteiramente pelo Ipatinga.
O rubro-negro de verdade sabe que o time em si muitas vezes importa pouco. O Flamengo é o maior do mundo (o verbo aqui é necessariamente no presente) não pelos jogadores que defendem sua camisa. Esses, com exceção de alguns notórios do passado, vão e vêm, escrevem sua breve história e passam. A torcida do Flamengo não.
Essa vive como uma força do universo, um gigante que quando acordado é capaz de quase tudo. Ontem, não era um Barcelona de Ronaldinho que a gente enfrentava. Era um mero Ipatinga. Mas um Ipatinga que veio com um esquema tático certinho e que dominou o jogo completamente. Em qualquer outro canto do planeta o jogo seria deles, a classificação do time mineiro seria certa.
Mas não ontem, naõ no Maracanã, não diante da imensa Nação Rubro-Negra num dia especialmente inspirada em que ela literalmente entrou em campo e ganhou o jogo.
Já ouvi mutos elogios à torcida na Argentina, que não pára de cantar um segundo sequer, esteja o time ganhando ou perdendo. Lá a torcida permanece "dinamicamente estática", cantando sem parar, dando um mesmo tom durante todo o jogo. A torcida do Flamengo não. Ela joga junto. Ela sofre. Ela sente o momento do time adversário, sente quando tem que atacar ou permanecer num ritmo mais moderado. Ela dá o tom do jogo, mostrando ao time o que fazer. Ela literalmente entra em campo.
E ontem foi especialmente assim. Um jogo em que o Ipatinga dominou totalmente as ações no meio, fez um gol logo de cara e não tremeu em nenhum momento diante do time do Flamengo. Esse, por sua vez, teve a felicidade de empatar logo em seguida, mas deixou no placar um resultado extremamente perigoso, ainda mais num dia em que não andava nada bem e que com um a gol mais do adversário seria obrigado fazer mais dois.
Veio o segundo tempo, e o Ipatinga senhor de si, continuava a dominar.
Mas a Nação estava ali, presente e pulsando como nunca, e ela teria que ser derrotada também. E essa tarefa era grande demais para o Ipatinga. Numa prova inexorável da possibilidade de existência de um consciente coletivo, surgiu no ar a certeza de que se a gente quisesse chegar à final, não bastava deixar o jogo nas mãos do Waldemar e de sua equipe. A gente tinha que entrar em campo e decidir por nós mesmos. E foi o que aconteceu. A torcida vestiu o Manto, entoou seus cânticos sagrados e num espetáculo só possível de ser descrito para quem conhece com alguma intimidade o Maior do Mundo, subverteu a lógica do jogo e traçou o único destino possível para aquela noite: a vitória do Mengão e a vaga na final.
Já vi isso acontecer outras vezes, e sempre que acontece é de arrepiar. Quem estava no Maracanã ontem presenciou mais uma vez, não a vitória de um time de futebol, mas a vitória de uma torcida, a vitória de uma Nação chamada Flamengo.

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