terça-feira, 18 de outubro de 2011

Alfarrábios do Melo

Saudações flamengas a todos.

Tendo conquistado 10 dos últimos 12 pontos em disputa, o Flamengo entrou novamente na briga pelo título, exatamente na reta final. Mas a difícil tabela e o futebol, digamos, pragmático apresentado pelo time de Luxemburgo ainda não empolgam. Ademais, contra o imprevisível Santos de Neymar, não teremos nossas estrelas maiores. Mas isso pode ser bom.

Uma olhada rápida, mesmo que desatenta, na trajetória flamenga mostra que esse é o tipo de jogo em que o rubro-negro cresce e ganha força. Exemplos há aos cachos. Evidentemente, essa tradiçao por si só não garante nada, e pensar que a história vai fazer o trabalho sozinha não é o pensamento mais adequado. De qualquer forma, tenho certeza absoluta que no próximo domingo poderá faltar muita coisa em campo. Mas em nenhum momento sentiremos falta da luta e da entrega que tanto fazem o Flamengo peculiar.

Como aperitivo, deixo um texto sobre um dia em que o próprio Santos sentiu o que é enfrentar um Flamengo inferiorizado e mordido. Boa leitura.

O Flamengo em Luvas

2005. O Flamengo vive o auge dos anos de chumbo, um dos piores momentos de sua história. Falido, quebrado e sem um time que sequer se aproxime de algo que lembre sua envergadura histórica, o rubro-negro vai colhendo resultados impensáveis até para o mais pessimista de seus torcedores. Faz um Estadual grotesco, onde chega a ser goleado e sucessivamente derrotado por equipes de aluguel, diante de um Maracanã atônito. Treinadores, como o despreparado Júlio César Leal e o intransigente Cuca, são dizimados como moscas por uma diretoria perdida, aparvalhada e sem nenhuma perspectiva de melhoria a curto prazo. Para o Campeonato Brasileiro que já se inicia, a única meta é manter um resto de dignidade.

E, sob o rígido comando do gaúcho Celso Roth, o início flamengo até surpreende. Roth monta um esquema compatível com a pobreza técnica de seu elenco, faz o Flamengo praticar um futebol indigente, mas de certa forma eficiente. E consegue juntar um empate (1-1) no Maracanã contra o forte Cruzeiro, vence o Figueirense (1-0) em Florianópolis e é derrotado (0-1) pelo Internacional no Beira-Rio. Uma campanha modesta, que não anima, mas que projeta a equipe para o meio da tabela, mediocridade que flui como um bálsamo para uma Nação sofrida e descrente. As cassandras, sempre presentes para banhar-se nos despojos, apontam, risonhas: vem aí o Santos de Robinho.

O Santos inicia o Brasileiro de forma arrasadora. Três jogos, três vitórias, liderança absoluta e o melhor futebol da competição. O treinador Alexandre Gallo (que substitui Oswaldo de Oliveira, de fraca passagem) monta um time coeso, liderado pelos experientes Ricardinho, Deivid e Léo. Ainda se reforça com a contratação do goleiro Henao, sensação do Once Caldas campeão da Libertadores-04. Mas a grande estrela é mesmo Robinho, que vive o auge da carreira e está de partida para o Real Madrid. O time é considerado amplo favorito para o confronto contra o Flamengo. Há quem fale em goleada.

Celso Roth, consciente das severas limitações do time, monta um sistema de jogo fundamentado numa retranca insana, com três zagueiros (Henrique, Rodrigo Arroz e Fabiano) e dois volantes (Da Silva e Jônatas). A armação fica a cargo do jovem Fellype Gabriel. O garoto China e o recém-contratado Renato Abreu (uma das poucas boas surpresas da temporada) são os alas. Na frente, o já contestado Obina irá formar dupla com Jean, que estreia após ser emprestado pelo Cruzeiro. No gol, o promissor Diego vem sendo elogiado, apesar de mostrar uma preocupante irregularidade. É essa a equipe que o Flamengo prepara para mandar a campo. Aliás, campo novo. Com o (enésimo) fechamento do Maracanã para obras, é erguida uma Arena na Ilha do Governador, parceria com o Botafogo e a Petrobras. E o estádio está pronto para uso. E será aberto pela primeira vez ao público.

Desconfiada, a torcida flamenga não enche o novo estádio, mas comparece em número razoável. E canta a plenos pulmões, criando um clima positivo para o jogo que irá iniciar no final da tarde. Na verdade, muita gente na Gávea anda mordida com algumas manchetes de jornais paulistas (e mesmo cariocas) exaltando em excesso o time de Robinho e ignorando solenemente o time flamengo. E juram briga até o final.

Contrariando as expectativas, o Flamengo inicia o jogo avançando suas linhas e buscando o gol. Assanhado e surpreso com os berros de sua Nação, o time vai pra dentro do Santos e busca imprimir velocidade. Erra muito, mas não nega luta a seu torcedor. Morde, ganha todas as bolas. Com apenas dois minutos, Jean cruza e Obina, de cabeça, quase abre o placar. Logo depois, Renato bate escanteio e Henao salva com um tapinha que tira a bola da cabeça de Jean. O Flamengo exerce uma pressão sufocante e absurdamente surpreendente.

Mas o Santos tem mais futebol. Aos poucos e calmamente, seus jogadores vão encontrando seus espaços, e não é difícil acertar a marcação diante da aridez de talento nas fileiras rubro-negras. O volante Da Silva é capaz de passar rodadas inteiras sem acertar um passe, Fellype Gabriel e Jean oferecem muita disposição mas parecem correr, e correr, e correr em vão, Obina já começa a ficar isolado na frente, o lateral China mostra muita regularidade, defendendo e atacando de forma igualmente ineficaz, Renato está nitidamente deslocado e fora de função, e os inseguros zagueiros revezam-se na distribuição de faltas e chutões a esmo. O Santos apenas mantém a posse de bola, buscando irritar o time da casa e encaixar um contragolpe que defina a partida.

Num desses contragolpes, Bovio entra riscando pela intermediária flamenga e lança Deivid, que está inteiramente livre e fuzila, uma chance cristalina de gol. Mas Diego faz uma defesa espetacular, manda a escanteio e arranca aplausos do estádio. O primeiro tempo acaba sob os gritos de “Diego, Diego.”

Segundo tempo, a partida se torna mais aberta. O Santos deixa de lado a postura passiva e vem pra matar o jogo. Mas o Flamengo tenta repetir a pressão inicial. Fellype Gabriel faz boa jogada e lança Obina, que manda um míssil, interceptado com extrema dificuldade por Henao.

Animado, o Flamengo vai pra cima e abre o time. Demais. É o erro, a deixa que o Santos tanto espera. Robinho arruma espaço, deixa Rodrigo Arroz e Fabiano pra trás e serve Deivid, que está livre e apenas empurra pro gol. Santos 1-0, aos 9'. Parece que vai começar o espetáculo.

Desorientado, o Flamengo corre nervoso e à toa. E abre rombos, avenidas, crateras. Agora a bola é esticada para Deivid, que ganha na corrida, invade a área e vai marcar o segundo. Mas Diego faz defesa sensacional. A bola volta pra Deivid, que chuta de novo. Outra grande defesa de Diego. Uma aura diferente começa a pairar sobre o goleiro flamengo.

O estádio começa a esboçar os primeiros muxoxos, o Santos domina amplamente a partida. Numa rara trama pelo meio, alguém encontra Obina vindo buscar jogo. O baiano se reta e resolve tentar definir o lance sozinho. Passa por um zagueiro e manda a bomba, de longe. O projétil uiva na frente de Henao e explode na gaveta, indefensável, preciso, mortal. O Flamengo empata e enlouquece o jogo.

Agora Gallo mexe no time santista, abre a equipe. O Santos vem pro embate direto. E começa o bombardeio. Fabiano vem pela direita, entra na área e manda pro gol, Diego voa e agarra a bola de forma inacreditável e sobrenatural. A torcida sente a presença de São Judas Tadeu no estádio, ele está ali, materializado nas luvas de Diego. O bastião inexpugnável de Nelson Rodrigues começa a se corporificar na frágil figura de Diego. Ricardinho cobra falta preciso, de curva, forte, no canto. Diego espalma, outra fulgurante defesa. Cada intervenção de Diego levanta todo um país, que não tira os olhos do campo, da TV, do rádio. Ricardinho encontra Deivid completamente solto e à vontade na área, Deivid capricha e manda um balaço no ângulo, o intransponível Diego espalma, córner. Ninguém consegue crer no que está diante de seus olhos. A invencibilidade de um goleiro, algo só possível em contos infantis, aparece ali, numa partida de futebol profissional. Ninguém e nada, absolutamente nada, vazará Diego nessa tarde-noite.

O desfecho se aproxima. Jean arranca pelo meio da defesa santista e rola para Jônatas, que desloca Henao e manda pra rede, já aos 41'. Numa sensação de torpor que não vive há muito tempo, a Nação enlouquece com a virada flamenga. Ainda canta, dança e grita, quando o Santos dá a saída, Robinho dribla e toca a Ricardinho, daí a Danilo, que dribla dois zagueiros e está na cara do gol, sozinho diante de um monstro. Diego arremessa-se aos pés do atacante e defende, mais uma vez de forma exuberante. E o Santos desiste. E o jogo termina. E o Flamengo vence. A sensação da mídia, o Super Santástico, é derrotado pelo bando molambo flamengo. 2-1.

2005 seguirá difícil, terminará dramático, pleno de humilhações, desilusões e uma miraculosa ressurreição que sinalizará novos tempos. Mas na memória do torcedor estará reservado sempre um carinhoso espaço para esse dia mágico, uma passagem em que, por um átimo em uma era negra, o Flamengo reviveu seus mais típicos e gloriosos dias, ignorando a pretensa grandeza rival e atirando-se à luta com a bravura e a coragem dos vencedores. E quando um Flamengo guerreiro se une com sua Nação, a força dessa comunhão se torna imbatível, invencível, sobrenatural. E todo e qualquer adversário treme e soçobra.

Assim mostraram, naquela tarde, as luvas de Diego.

YOUTUBE: FLAMENGO 2-1 SANTOS – Gol Obina, Defesas Diego

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