O Fim do Flamengo?
O Flamengo não é um clube de futebol. O Flamengo é um dos bens culturais mais valiosos da civilização brasileira, um símbolo concreto da possibilidade de construir uma Nação autônoma, mestiça e democrática. Assim, não é possível achar que o Flamengo terá um "fim" burocrático, vendido num leilão ou com falência decretada. A possibilidade do fim está no descolamento entre sentimento e instituição, que é o que comecei a sentir pessoalmente há algumas semanas.
Todos amamos o Flamengo, e nos identificamos com uma memória coletiva feita de glórias, lutas, sangue, graça e prazer. Nos acostumamos a olhar 11 jogadores vestindo a camisa do Flamengo e sentir naquilo a perpetuação eterna de uma mística quase atemporal, como se o clube, de alguma forma, sempre tivesse existido e fosse mais propriamente um sentimento do que uma entidade com CNPJ. Isso faz o Flamengo. E a perda disso pode decretar nosso fim.
Há algumas semanas andei fugindo da televisão aos domingos e às quartas de noite. Marcava cerveja, ia ao cinema, qualquer coisa que evitasse o inferno que é assistir um jogo do Flamengo no atual Brasileiro. Consegui ser feliz. Ontem não resisti e vi todo o jogo, mas temo estar perdendo o sentimento de que falei anteriormente. Nos últimos anos, acompanhava cada partida e ia ao estádio, pois estava convencido de que o sofrimento era uma espécie de dever moral de todo rubro-negro, uma espécie de provação que só aumentava minha conexão com a mística. O time ser ruim ou não era uma questão menor diante da necessidade imperiosa de estar junto dessa comunidade imaginada que é o Flamengo. Hoje, temo não sentir isso com força. Já me peguei tendo sentimentos de descaso, enfado e cansaço emocional. E já vi amigos e colegas sentindo coisas parecidas. Muitos não têm raiva, nem acreditam que o rebaixamento seria "pedagógico". Nada disso. Simplesmente suspiram e vivem suas vidas.
Na história das civilizações, a perda desse sentimento é fatal. Crises, guerras civis, ameaças, tudo isso faz parte da trajetória de altos e baixos que marca a História dos povos no mundo. Mas no momento em que instituições e símbolos viram cascas vazias, sem se ancorarem no fervor e no amor dos súditos, a decadência vira algo praticamente inevitável. Se estou certo em acreditar que o Flamengo constitui uma civilização, um modo de estar no mundo e de partilhar valores e paixões com outros seres humanos, então eu tenho medo. Eu tenho medo de que cada vez mais súditos prefiram viver outras emoções. Eu tenho medo de que torcedores se tornem cada vez mais indiferentes ao que se passa com aquele bando de gente vestida de vermelho e preto num gramado verde. Eu tenho medo de sentir vontade de fugir da televisão em dias de jogos. Eu tenho medo de, daqui a 20 anos, quando perguntado se tenho um time, responder "adoro futebol e era Flamengo doente, mas hoje só aprecio", frase que sempre considerei um atestado de fraqueza moral.
Eu tenho medo do fim do Flamengo.
quinta-feira, 9 de agosto de 2007
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