segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Sobre o mito das partidas "decisivas"

Uma das teses que tenho visto proliferar por aí, seja da lavra de amigos ou de jornalistas relativamente conceituados no meio esportivo, como o Vitor Birner, é que este Flamengo pipoca nos momentos decisivos. Que na hora que precisa, este time peida.

Devo discordar. Isso é mito.

Na própria Libertadores, antes mesmo do desastre de 7 de maio de 2008, o Flamengo tivera dois destes momentos chamados decisivos. Vamos a eles: o primeiro, contra o Nacional do Uruguai. Era a quarta rodada da fase classificatória. O Flamengo perdera em Montevidéu e, com apenas quatro pontos, atrás dos próprios uruguaios (seis em nove possíveis) e do Cienciano (também seis em nove possíveis), jogava todas suas chances contra a equipe do Chengue Morales. Empate ou derrota tinha significado de eliminação prematura. E o time de Joel ganhou por 2 a 0. Merecidamente.

Na jornada seguinte, um desafio nas alturas. O Flamengo subia o morro ciente de que uma derrota poderia deixá-lo sem chances na tabela. E a equipe fez uma grande exibição, ganhando por 3 a 0. Perdeu o confronto com o América-MEX de forma inacreditável, é verdade. Mas, salvo se fosse campeão, e só a LDU foi campeã, todos os outros falharam no momento decisivo: Fluminense, Boca Juniors, o próprio América de um Cabañas que ainda é tratado com folclore (apesar de ser artilheiro duas vezes consecutivas da Libertadores e de ser um dos principais nomes do Paraguai, líder isolado das Eliminatórias) e, claro, o aqui decantado São Paulo de Muricy. Todo jogo em mata-mata da Libertadores tem caráter de decisivo. E talvez por só entender isso quando estava perdendo por 3 a 0 é que o Flamengo foi eliminado.

No campeonato brasileiro, mesma coisa. A derrota para o São Paulo é citada como perda de um jogo decisivo. Como vimos, aquele jogo não decidiu nada - o São Paulo ocupa apenas a quarta colocação do campeonato, com chances ainda pouco prováveis de título. Claro, seriam três pontos a mais para o Flamengo, três pontos a menos para o São Paulo. Mas num campeonato de pontos corridos, todos os jogos tendem a ter um peso muito similar. O que está fazendo mais falta? Os três pontos perdidos em casa para o São Paulo? Ou os cinco perdidos para Lusa e Vitória? Se ganhássemos os três sobre o São Paulo, é certo, estaríamos nós com 52 e eles com 49. Mas aqueles cinco pontos em jogos relativamente bobos significariam estar com 54 pontos, a apenas dois do líder, o Grêmio. Aliás, aquela partidacontra os gaúchos também era citada como decisiva. E o Flamengo ganhou.

Claro, não desprezo o simbolismo que determinados jogos podem ter no estado de espírito da torcida, na confiança em dias melhores. Não desconsidero que, no momento, ganhar do São Paulo - atual bicampeão nacional - tem um sabor bem maior que uma vitória sobre, digamos, o Atlético-PR (campeão de 2001 e vicecampeão de 2004).

Mas não devemos perder de vista que num campeonato de pontos corridos, cada vitória gera uma expectativa cada vez maior para o jogo seguinte. A equipe vinha de três bons resultados, o que reforçava a esperança de uma nova arrancada rumo ao título. Mas, a menos que o clube alcançasse uma sequência de seis vitórias consecutivas no campeonato brasileiro, algo que não ocorreu nem mesmo na já histórica arrancada de 2007 (cinco vitórias entre a derrota para o Flu e a derrota para o Cruzeiro), qualquer tropeço entre 21 de setembro e 23 de outubro (quando o Flamengo enfrenta o Coritiba) seria tratado como pipocada num momento decisivo.

A exasperação com o jejum de 16 anos na mais importante competição nacional, claro, faz com que essas reações de revolta e decepção ganhem ressonância ainda maior. Todos esperam que a equipe embale, emplaque uma boa sequência de resultados. Mas é fato que são poucas as equipes - mesmo o Palmeiras de Luxemburgo - que estão conseguindo ganhar tantas partidas em sequência como esperava nossa torcida, ansiosa por um Hexa redentor. Não por acaso, o vencedor do turno sempre foi o campeão nessa era dos corridos - e o Grêmio tem tudo para reforçar esse retrospecto.

Ter que correr atrás dos outros e superar-se rodada a rodada, a pressão de não poder falhar, de não poder jogar mal, de desprezar a margem de erro, é algo que tipifica equipes brilhantes. O que nem de longe parece ser o caso deste Flamengo. E isso não tem a ver com ser pipoqueiro.

A fama do se chegar, fodeu desconsidera que a realidade de um campeonato de pontos corridos é outra. Os pontos perdidos de forma boba têm peso muito similar ao dos confrontos com chancela de "decisivos" - sobretudo num campeonato equilibradíssimo como esse.

O que vai fazer a diferença, no final das contas, nem será tanto essa bizarra e inaceitável apresentação de sábado. No final das contas, os pontos que todos irão lamentar serão aqueles perdidos pela falta de rapidez na reposição de um ataque inteiro negociado, o que custou um desempenho de 10% de aproveitamento em sete partidas.

O Flamengo ainda não (re)encontrou seu homem-gol. Nem seu camisa 10. Isso, sim, está sendo decisivo.

Adendo: post levemente influenciado pela leitura do livro Auto-Engano, de Eduardo Giannetti .

Flamengo Net

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