Era uma vez...
Havia dois times de Remo. Cada time tinha o seu barco com sete remadores e um treinador. O time A, sempre responsável com suas tradições e bastante conservador, porém que trabalha sério e com comprometimento com seus atletas. Mas havia também o segundo time, o B. Esse time sempre pensava à frente, sempre tentava inovar, mesmo que isso significasse deixar de cumprir com algumas obrigações.
Os dois times disputavam ano após ano um campeonato. Era sempre pau-a-pau, mas nos últimos anos, o time A, sempre trabalhando a sério, começou a vencer mais e se distanciar do B. E após mais uma vitória do A, o B resolveu agir.
"Vamos contratar uma equipe profissional para gerenciar o nosso barco. Vocês verão, já na primeira regata, que o profissionalismo é a saída e que somos os melhores", anunciou o presidente do time. Com isso, contrataram um Supervisor de Remo, que receberia 20 mil reais mensais, para ver se o principal instrumento funcionaria sem problemas, um Gerente de Finca-Pé, que custaria 45 mil mensais, para verificar os tênis fixos dos remadores segundo as mais modernas tendências alemãs e um Manager de Forqueta, por outros 45 mil/mês, para ajustar o remo da melhor forma para cada remador. Além dos três profissionais contratados, iriam no barco, mais quatro remadores e o treinador.
No dia da regata, lá foram os barcos para a água. Depois de um começo empolgante, o time A, sempre sério e responsável terminou vencendo com boa diferença. Os seus sete remadores e o treinador comemoravam a vitória. O time B não acreditava que seu investimento fora por água abaixo. O presidente vociferava: "isso não vai ficar assim, eu prometo que vamos superar o rival. É só dar tempo para o novo modelo. É assim no mundo todo".
Na regata seguinte lá estavam os barcos. Mais uma vitória do time A, dessa vez com mais facilidade ainda. A diretoria do B não se conteve e contratou um Vice-Presidente de Marketing de Ventos para descobrir os atalhos da água. Ele trabalhara em vários clubes, sempre recebendo altos salários, mas o máximo que havia conseguido foi um vice-campeonato há três anos. Mas ele sempre arrumava um cargo em clubes grandes, pois os dirigentes acreditavam no seu trabalho.
Veio a regata e o B foi pr'água com seus quatro profissionais super experientes e remunerados, seus três remadores e o treinador. O A estava lá com seus sete remadores de sempre e seu treinador. Vitória do acachapante do time A. Uma vergonha "Bezista". A torcida do B começava a protestar contra esse profissionalismo que não trazia resultados. Nunca um time havia vencido tão fácil uma regata. Foi uma diferença de seis minutos. O presidente do B anunciou mudanças.
"Entendo o nosso torcedor e garanto que não iremos ceder tão facilmente. Vamos mostrar que os remadores honram suas camisas e vamos destruir o rival". Com isso, o presidente anunciou que para fechar o modelo de profissionalismo, traria um Diretor Geral, que receberia algo em torno de 60 mil por mês, mais participação na revelação de jovens remadores e carta-branca para mudar o que achasse necessário. E ele já chegou mudando e trazendo um novo remador. Eleito há 12 anos o melhor remador do mundo, essa fera alternava fantásticas regatas com longos períodos no estaleiro devido a dores crônicas no ombro. Valeria a pena? Bom, a torcida gostou e passou a acreditar. O craque só fez uma exigência: remaria com um remo apenas e gostaria de se sentar na proa. Dito e feito. O remador que ficava na frente do barco foi demitido e o time estava pronto para a decisão do campeonato.
Lá foram os barcos. O time A com sete remadores, que recebiam em dia, tinhas condições de trabalho e sabiam o que tinha que fazer, mais o seu treinador, e o time B com o supervisor, o gerente, o manager, o VP, o diretor, o remador restante, o craque do remo número 10 e o treinador.
Foi dada a largada. O barco A se distanciou. O remador remanescente do B se matava para fazer o seu barco sai do lugar. Enquanto ele tinha dois remos, o craque esperava o momento para colocar o seu remo na água. Só podia fazê-lo, quando o outro colocasse o seu também, para equilibrar. O treinador se esgoelava na popa do braço. E os dirigentes gritavam com o pobre do remador, absolvendo o craque que custou caro e iria resolver.
No meio da prova, com o A lá na frente, o treinador e o craque começaram a brigar. Uma discussão feia. A regata acabou, o A foi campeão e o barco do B continuou parado no meio da lagoa com os dois discutindo.
Quando finalmente voltaram para terra firme, o treinador foi demitido. O presidente disse que "ele não entendeu as diretrizes do profissionalismo e achamos melhor trocar". Para o seu lugar, foi contratado um treinador que tinha com o craque uma amizade de anos, mas em termos de resultados, era bem modesto. Mas saberia domar o craque. E para a temporada seguinte, o presidente prometeu: "teremos uma equipe competitiva e seremos campeões". E anunciou a contratação de um diretor técnico para trabalhar em conjunto com o treinador.
E o A foi bi-campeão.
-------------------------------------------------Durante todo o ano de 2004 eu venho dizendo que profissionalismo não é apenas remunerar dirigente e falar que acabou a mamata. Profissionalismo é ser correto, ser coerente e ter respeito por todos na empresa. Quem trabalha tem que receber e se for embora, não deve nada ao ex-patrão, mesmo que esse o tenha "revelado". O chefe é que foi otário de não saber cuidar do patrimônio.
Santos, Atlético e São Paulo ainda possuem dirigentes amadores no comando. Mas são responsáveis. Sabem que tem que cumprir com sua parte, para poder cobrar. E se falta dinheiro de um lado, trate de achar uma alternativa, ao invés de ficar chorando.
E enquanto todos os times da primeira divisão pensam em 2005, o Flamengo estacionou em janeiro de 2004.
Feliz, na medida do possível, Natal e que 2005 seja menos traumático.

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