terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Alfarrábios do Melo

Olá, saudações rubro-negras a todos. Para esquentar a semana do Fla-Flu, deixo a história de um dos mais sensacionais clássicos dessa longa rivalidade. Boa leitura.

“Há de chegar talvez o dia em que o Flamengo não precisará de jogadores, nem de técnicos, nem de nada. Bastará a camisa. Aberta no arco. E diante do furor impotente do adversário, a camisa Rubro-Negra será uma bastilha inexpugnável.” (Nelson Rodrigues)

O Dia em que o Manto jogou Sozinho

1956. O Campeonato Carioca está no início, sete rodadas disputadas. As principais equipes já se engalfinham pela liderança, ocupada pelo Vasco (13 pontos), seguido muito de perto por Flamengo (12), Fluminense (11) e Botafogo (10), prenúncio de uma bela disputa, especialmente em função da volta dos pontos corridos.

O Flamengo, tido como favorito, mantém a maior parte da equipe tricampeã. Os destaques são Pavão, Dequinha, Joel, Evaristo e Zagalo, além dos garotos Dida, Duca e Babá, que vão ganhando espaço sob a batuta do treinador Fleitas Solich, conhecido como “Feiticeiro”. Mas o rubro-negro ainda se ressentia da saída de Rubens, uma das principais figuras do tricampeonato. Além disso, a defesa não inspirava confiança e o jovem time pecava pela irregularidade. Uma derrota para o Olaria já ligara o sinal de alerta e mostrava que o trajeto seria bem mais pedregoso. E a tabela já marcava o primeiro grande teste. O primeiro clássico. Fla-Flu.

Sem dinheiro para contratações, o tricolor apostou em um time barato, buscando repetir a experiência de 1951, quando conquistou o título com vários garotos desconhecidos. O treinador Sylvio Pirillo tinha jogadores como Jair Santana, Léo, Valdo e Cacá, apoiados pela experiência de Pinheiro, Castilho e Telê. Parecia pouco, tanto que o tricolor voltava a receber a alcunha de “timinho”, sucesso em 1951. Mas o início era promissor. Os resultados mantinham o Fluminense perto da liderança, após dois clássicos já disputados. Se vencesse o Flamengo, o tricolor estaria em ótima situação para assumir a liderança. E a vitória esteve mesmo muito próxima...
O Maracanã está enfeitado e colorido à espera de seu clássico maior. Domingo de sol, bem ao gosto do carioca. O Flamengo veste rubro-negro, o Fluminense, completo, vem de branco. Zagalo é a principal baixa do Flamengo, vai ser substituído por Babá. Dida também está fora por opção de Fleitas, que prefere um ataque mais encorpado, com Evaristo e Paulinho.

Os primeiros minutos mostram que as duas equipes virão pro ataque, pois a vitória é importante para manter-se próximo ao Vasco. O Fluminense mostra notável disposição, ignora sua inferioridade técnica e tenta encurralar o Flamengo. Mas o rubro-negro faz valer o maior talento de seus jogadores e com isso a partida está nivelada. Os goleiros Chamorro e Castilho vão tendo trabalho, especialmente em função da força do ataque flamengo e da fragilidade de sua defesa, onde o estabanado Tomires vai tendo trabalho para conter o perigoso Valdo. A ausência de Zagalo logo é sentida, pois o veloz e driblador Babá não tem a visão tática do titular. Posiciona-se aberto, não fecha espaços no meio, que se torna vulnerável e muito dependente dos passes e lançamentos de Dequinha, o único jogador capaz de pensar o jogo flamengo. O Fluminense começa a perceber que a chave é anular Dequinha, e com isso o tricolor cresce na partida. E é sob forte pressão das Laranjeiras que o primeiro tempo termina 0-0.

Não são permitidas substituições. A torcida rubro-negra espera por uma das conhecidas mágicas do “Feiticeiro”, capaz de alterar um jogo apenas com uma conversa no vestiário. Mas o duro golpe vem logo aos 5’. Dequinha estica a perna, sente dor aguda. Músculo. Distensão. Dequinha, o organizador, o cérebro, o único capaz de fazer a saída de bola e distribuí-la fresquinha ao ataque. O Flamengo se vê à deriva, ilhado, vulnerável, com um a menos. Vai ter que ser na raça.

Mas luta e disposição o Fluminense também possui de sobra. E percebendo o momento favorável o tricolor atira-se com ímpeto sanguinário. Sua torcida enlouquece e empurra. O Flamengo sente o baque, passa a ser acossado por uma saraivada de bolas que zunem atravessando sua área de cima a baixo. Resiste milagrosamente. Os tricolores, afoitos com a vitória que lhes parece sorrir, atiram a esmo, perdem uma chance atrás da outra. Até que o cerrado bombardeio é interrompido por um apito enérgico, que trila implacável, decretando o pior. Pênalti para o Fluminense. Vai bater Pinheiro, zagueiro de seleção, conhecido por sua eficiência e frieza nas cobranças, que raríssimas vezes deixa de aproveitar.

Pinheiro olha para os lados, concentra-se, ignora o silêncio das vaias flamengas e o ensurdecedor ruído no lado tricolorido do estádio. Prepara-se, corre, desfere o costumeiro petardo. O tiro sai com violência impressionante, mas a bola explode no travessão, estalando um tapa na incrédula torcida fluminense. A massa flamenga invoca São Judas Tadeu e celebra o milagre, o inimaginável.

Mas ainda restam 30’. E nessa meia hora a fúria tricolor só aumenta. O time ignora seus cuidados defensivos, arremete-se suicida ao ataque, briga pelos dois pontos que julga seus. O Flamengo se segura, a criticada defesa impõe a lei da bicuda, entrincheira-se em sua área, seus soldados literalmente se jogam aos pés do adversário para impedir o pior, defendem a meta rubro-negra como se fosse a sua casa. A raça do Flamengo arranca lágrimas dos mais descrentes. Mas a pressão parece insuportável. Escurinho, Valdo, Telê, todos vão desperdiçando chances, algumas de dentro da pequena área. A trave de Chamorro estala várias outras vezes. Mas a bola insiste em não entrar. A partida vai seguindo, vai chegando ao seu final, e o Flamengo simplesmente se recusa a ser derrotado. O Maracanã nem pisca.

Quarenta minutos. O Fluminense entra tabelando, a chance agora é clara. A bola é lançada para o atacante Léo, que entra na corrida mas chuta fraco, mascado, nas mãos de Chamorro. Os tricolores já mostram desânimo. Mas não dá pra pensar muito, porque Chamorro já lançou com as mãos o ponta Babá, que está no meio do campo, sozinho. O arisco cearense de 1,56 m, pernas curtinhas como ratinho de desenho animado estica a corrida. Pinheiro e mais um exército de camisas brancas vão ao seu encalço. Mas ninguém vai pegar o pivete Babá. Castilho sai do gol desesperado, imponente. Espera o drible. Aliás, os jogadores esperam o drible, o estádio espera o drible. Babá só sabe driblar. Castilho prepara o mergulho, vai abafar o irrequieto pontinha. Mas Babá, como que tocado por São Judas Tadeu, levanta a cabeça e dá um toque leve, de gênio, faz a bola subir, subir, mansinha, mansinha. A pelota viaja por cima de um aparvalhado Castilho e desce calmamente, sem pressa, acomodando-se preguiçosamente nas redes. Finalmente sai o gol. Mas é Flamengo.

O efeito do sagrado gol de Babá é imediato. A torcida tricolor desiste e toma o rumo de casa. A massa flamenga faz do Maracanã seu habitual caldeirão, e mal percebe o apito trilar forte e implacável, dessa vez decretando o final da partida. De forma inacreditável, Flamengo 1-0 Fluminense.

Após a heróica vitória, Babá de imediato se tornou o xodó da torcida (fazendo parte de uma lista em que figuram nomes como Quirino, Fio, Peu e Obina). Mas o Flamengo não seria o campeão naquele ano, vítima da falta de consistência de sua equipe. De qualquer forma, o Fla-Flu de 1956 ainda seria lembrado por vários anos, viva demonstração da mística e da alma de um manto muito mais que sagrado.

Um manto capaz de jogar sozinho.

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