quarta-feira, 12 de março de 2008


Flamengo Heróico

Irmãos, todos os infiéis e incréus que não comungam do culto aos nossos deuses vermelho-e-pretos preferem morrer pra não ter que admitir que eles sabem muito bem que o único clube do planeta que reúne os traços do herói arquetípico clássico é o Flamengão Fuderosão Pentacampeão.

Nossas vitórias impossíveis, nossas freqüentes e inexplicáveis ressurreições após a expedição apressada de atestados de óbito forjados pelos nossos magoados rivais e a nossa magnífica e incomparável Sala de Troféus com suas dimensões épicas e em constante processo de expansão desde 1895, enche nossos clientes, fregueses e fornecedores de ira impotente.

Essas características do herói arquetípico vocês conhecem muito bem, talvez por outro nome. Os gregos pontificaram há milênios que o herói é o protagonista nos gêneros épico e dramático. O centro das atenções, o condutor da estória e personagem da História. O herói é mais que os outros, ele fica na meiúca entre os deuses e os mortais. Só podem estar falando do Flamengo, concordam?

O herói (e o Mengão) é semi-divino porque mesmo sendo muito humano ele consegue exercer aquelas virtudes que estão ao alcance dos homens, mas que são muito difíceis de se praticar na real, tipo coragem, força de vontade, paciência, determinação, bla-blá-blá. Mas pela sua parte humana o herói também vacila, tem fraquezas e dúvidas. Essas vacilações aproximam o herói do público, que se sente representado por aquele personagem e se irmana na sua fraqueza momentânea.

Uma coisa muito importante é que o herói, por ser um protegido dos deuses, tem que ser sempre um exemplo de conduta em sua busca pela justiça, pela paz ou, às vezes, pela vingança (mas sempre para vingar uma injustiça). Tem algum time que reúna todas essas características que não seja o Flamengão?

Nos cânones da dramaturgia está mais ou menos escrito que pra estória ficar maneira o herói não pode se dar bem logo porque aí quebra a firma. O herói tem que enfrentar reveses, dificuldades e peripécias antes de alcançar o seu objetivo, que é sempre o clímax da narrativa. São esses perrengues aparentemente insolúveis (cátedra em que o Flamengo é doutorado magna cum laude) que vão prendendo a atenção da massa.

Os gregos sabiam das coisas, imaginem que tédio seria se o Hércules resolvesse suas paradas rapidamente e ficasse no 0x0 com o Rei Euristeu logo no começo do livro. Hoje ninguém ia falar dos 12 cascudos trabalhos que o cara teve que fazer pra se livrar do inquérito por ter matado a própria mulher e a filha (foi um acidente armado pela venenosa Hera).

Pelo mesmo preciosismo dramatúrgico muitos rubro-negros mal conseguem disfarçar a alegria com que se inscrevem em qualquer crisezinha fajuta que tentem erguer lá pros lados da vitoriosa Gávea Sinistra. É uma alegria para esse ramo de flamenguistas quando a casa ameaça cair. Não os julgo mal, eu entendo perfeitamente esse tipo de torcedor. Eles não são menos Flamengo que nenhum de nós, mas eles estão doidos pra entrar em cena e darem aquela moral pro herói se dar bem no final. E quem não está a fim de formar no bonde do Mengão quando ele começa a subir a ladeira pra poder dizer depois:
- Eu tava lá, nossa torcida arrebentou e fez a diferença! ?

Assim é o Flamengo e assim é a torcida do Flamengo. Temos mesmo essa veia heróica pulsando no pescoço, sempre na iminência de estourar de um momento pro outro. Não suportamos os benefícios terapêuticos de uma trajetória de discreta ascensão gradual rumo ao topo. Não, a torcida do Flamengo se viciou na adrenalina que só a beira do abismo produz. A liderança inconteste nos aborrece, as chances matemáticas de uma quarta rodada em um grupo de 6 nos enfada, buscamos a ameaça da catástrofe entre os saltos acrobáticos que damos a cada rodada.

Porque acreditamos piamente que só quando tudo parece perdido e só a nossa pequena torcida (mais ou menos 40 milhões de brasileiros, sem contar a molecada com menos de 16 e os coroas com mais de 70) e o darwinismo bancam a aposta em nossa sobrevivência, que se faz o milagre flamengo.

É nesse preciso momento, com a chapa bem quente e mínimas chances de êxito, a finest hour de qualquer rubro-negro. É quando o torcedor, agora investido mediunicamente dos poderes divinos do Manto Sagrado e da longa seqüência de Pais da Nação que remonta a 1895, se torna ainda mais indispensável, necessário e decisivo.

Por isso mesmo eu não acredito muito quando o Flamengo faz aquele tipo de campanha impecável onde nossos guerreiros saem de campo com os calções imaculadamente alvos. Sou muito mais o Mengão quando ele vem-que-vem-que-vem-quicando pra passar o rodo geral. Tropeçando 3 vezes e levantando 4, partindo pra cima e ganhando tudo.

Isto posto, considero até desnecessárias as recomendações para que o time parta com tudo pra cima do Mesquita, é evidente que a vitória é obrigatória. Como já foi dito anteriormente, essa é a Taça Rio mais mole do século e se o Mengão a deixar escapar será uma tremenda deselegância com a torcida. Que certamente tem mais o que fazer do que ir ao Maraca para assistir a uma final do Carioca cujo resultado já está escrito há mais de 10.000 anos.

Mengão Sempre

Flamengo Net

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