REFLEXÕES SOBRE A VIRADA
"Nosso planejamento é muito dentro da realidade do futebol brasileiro, jogadores que escolhemos a dedo. O que quer dizer isso: custo-benefício, que ele fique muito pouco ali no Reffis*. Quando fica, a gente puxa a ficha e chama o cara: 'Você está muito aqui'. Contratamos bem no que diz respeito a dinheiro e trazemos o cara para jogar"
Muricy Ramalho, técnico do São Paulo, em entrevista à revista Trivela deste mês
O acompanhamento do noticiário rubro-negro neste período de especulações só me permite chegar a uma triste conclusão, ainda que eu não tenha saco nem tempo para ler todos os sites, blogs e jornais que existem por aí: estou convencido de que pouca coisa, de fato, mudou no Flamengo.
E nem fizeram questão de disfarçar. Bastou uma terceira colocação no Campeonato Brasileiro, posição digna que, além de títulos relevantes, deveria ser rotina no clube, para que explodisse o otimismo cego e inconseqüente de alguns torcedores, inexplicavelmente ainda não vacinados - sempre embarcam naquele engodo de "maior clube do mundo" e "rumo a Tóquio", também alimentado pelos dirigentes. Uma espécie de primo pobre, embora igualmente imbecilizante, do "Brasil-sil-sil" da Rede Globo.
Kléber Leite voltou à ação. Ao invés de adotar um modelo sério, discreto e eficiente, como o do São Paulo, incansável colecionador de troféus, o vice-presidente de futebol rubro-negro preferiu trazer o volante Jônatas de volta, sonha com Ronaldo e flerta com o polêmico atacante Diego Tardelli, que se fosse bom mesmo teria permanência garantida no Morumbi.
Vejam o caso de Jônatas: ele será realmente necessário em um elenco cheio de volantes? Continuará fingindo que marca enquanto apenas observa o adversário? Sobre Ronaldo, é inevitável ter dúvidas com relação à importância que o craque, caso desembarque no Rio de Janeiro, atribuirá à agenda de atleta.
O ponto mais importante, no entanto, é quanto todos esses caras vão custar ao clube. Não levo a menor fé nessa aparente, e tão propagada, saúde financeira. A aprovação das contas pelo Conselho Deliberativo do Flamengo já foi colocada sob suspeita na coluna de Renato Maurício Prado, no O Globo, há alguns dias. O jornalista publicou e-mail de um conselheiro que, entre outros detalhes, garante terem havido apelos na reunião de aprovação do orçamento, a despeito de irregularidades. Eis o argumento: se as contas fossem rejeitadas, afirma a fonte, o clube ficaria engessado administrativamente.
Não sou contra a vinda de craques, pelo contrário. E acho que o Flamengo tem time para reconquistar a América do Sul - falta apenas um atacante de qualidade. Gostaria apenas de ter certeza que o clube respeita o orçamento e de constatar sobriedade dos responsáveis na hora de contratar e, principalmente, de alardear futuros reforços. Gastar além da conta e falar demais não são as receitas indicadas para quem pretende se firmar no topo, apesar dos progressos recentes. Ou alguém duvida da veracidade das palavras em itálico postadas lá em cima?
* Centro de recuperação física do clube
sábado, 29 de dezembro de 2007
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