quarta-feira, 14 de novembro de 2007

O Gol Alicdes
Ou: Uma derrota e uma vitória

Até às duas da tarde de domingo eu não tinha certeza se iria ou não ao Maraca, apesar dos ingressos comprados desde quinta-feira e de ter convencido um amigão e compadre a voltar ao estádio, coisa que ele não fazia desde o distante Flamengo x San Lorenzo pela final da Mercosul de 2001.

Aliás, a dúvida me consumia desde a manhã de sábado, quando no caminho do inevitável super-hiper-mercado na Barra da Tijuca o telefone tocou, e eu gelei. Era a notícia que eu sabia que não tardaria, indesejável, mas que eu sabia inevitável. Meu pai havia morrido.

Dei meia volta e voei para o Flamengo, onde ele havia mansamente partido em sua cama. Muito velinho, aos 96 anos, não resistiu a uma infecção urinária e deixou o plano terreno após uma bela, longa e bem-vivida vida. Na quinta feira do jogo contra o Corinthians meu irmão já havia deixado às pressas o bar onde víamos o PPV no intervalo do jogo pra ficar com ele, e naquele feriado prolongado ficamos com ele primeiramente no hospital e depois em casa. Na própria quinta lhe arranquei um tênue mas sacana sorriso ao dizer “pai, o Flamengo ganhou do Corinthians de virada!”, mas ele logo voltou a sua expressão ausente em seu labirinto mental, certamente imaginando que o gol fora do Dida, ou mesmo do Leônidas da Silva, jogadores provavelmente mais vivos em sua memória que Obinas e Souzas.

Meu pai chegou ao Rio, vindo do Ceará, para servir ao exército em 1932. Levado por um amigo tricolor a um Fla-Flu ficou com pena do derrotado e traiu o amigo, virou Flamengo. Apaixonado por futebol acompanhou a Copa de 1934 por notícias via telegrama fixadas na porta do Jornal do Brasil, na elegante Avenida Rio Branco, para uma ansiosa pequena multidão, e a de 1938 pelo rádio, que fazia pela primeira vez uma transmissão ao vivo transcontinental. Estava no Maracanã em 1950, e como todos os outros nunca viu um silêncio tão grande, tão fotre, tão pungente. Viu lendas jogarem com o Manto Sagrado, como Leônidas, e meio de brincadeira me disse que vira Friedenreich em fim de carreira. Era fã de Zizinho, “Mestre Ziza”, adorava o Almir Pernambuquinho, elogiava o futebol de Evaristo, e considerava o Dida o melhor atacante que já vira no Flamengo até... até a geração de ouro dos anos 70/80, sua última grande alegria no futebol e meu debút como torcedor do esporte brteão Daí em diante perdeu o prazer de assistir aos jogos, tinha horror ao Romário e ao Luxemburgo, detestava o anti-futebol praticado hoje. O último grande jogo que vimos juntos foi a decisão do estadual de 2001, quando depois do antológico gol do Pet eu chorei, e ele me deu aquele mesmo sorriso sacana quando eu lhe disse que o Mengão havia ganho do Corinthians.

Então eu estava lá, tratando dos trâmites para o enterro e a dúvida me consumia, “meu Deus, vou ou não ao Maracanã? Será falta de respeito? Será que devo descansar em casa, ‘curtir’ o meu luto?”. No fim do dia falei com o meu irmão, “vamos?”. Ele topou. Fui conversar com a minha mulher, que achou um pequeno absurdo, mas compreendeu. Eu mesmo não consegui achar qualquer motivo convincente para não ir, não fazia sentido. “O máximo que pode acontecer”, pensei eu,” é eu voltar mais triste pra casa”, o que, honestamente não faria a menor diferença.

No enterro confirmei com o amigo, “vamos?”, ele arregalou os olhos, achou estranho mas topou. Saí às 14h do cemitério, fui pra casa, e após o banho e almoço rápido regulamentares zarpei pro Maior do Mundo, ainda meio cabreiro, não sabendo direito o que eu estava sentindo.

Casa cheia, cabeça cheia, jogo nervoso, a figura dele me martelava a cabeça. No segundo tempo um grande amigo, companheiro de Maraca e de blog, pergunta: “Qual o nome do seu pai?”. “Alcides, guerreiro grego da Ilíada”, respondo, “da Eneida (de Virgílio)” me corrige, sem deixar quicar. “Então olha aí, esse vai ser o Gol Alcides!” diz o Arthur apontando para a falta que Íbson desperdiçaria bem a nossa frente. A brincadeira me atingiu em cheio, fiquei instantaneamente emocionado.Em mais duas vezes ele lançaria o “Gol Alcides”, completando ainda que “sempre que um grande rubro-negro morre o Flamengo ganha, foi assim com o meu pai, com o Roberto Marinho...”

E ele estava certo, Juan cruza, Obina acha Fábio Luciano, que vê o Souza livre e...

Não sei, não vi, comecei a chorar, lágrimas de esguicho, ao melhor estilo Rodrigueano. E não vi mais nada, só pensava no meu pai, e na homenagem involuntária prestada pelo Souza a sua memória.

Obrigado, papai, por me deixar a melhor herança que lhe seria possível: Um coração rubro-negro.

Descanse em paz, e acompanhe aí junto ao vovô e a mamãe o campeonato celestial, que deve ser sensacional!

SRN!

Flamengo Net

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