quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Acima de tudo, um rubro-negro


Este é o livro que será lançado domingo, antes do jogo contra o Atlético Paranaense. Imperdível


Cláudio Cruz é um cara que eu poderia apresentar de forma simples: uma das pessoas mais honestas que eu já conheci. Tanto financeira quanto intelectualmente. Cláudio Cruz é polícia. Ou melhor, é “puliça”, que é como se chamam essas pessoas que, no Brasil, lutam em defesa do cidadão e da segurança pública e recebem um salário indecente para sustentar a própria família, sem reconhecimento da sociedade. Além disso, lutou sempre, na linha de frente, em defesa de melhor salário para sua instituição, que é a Polícia Civil do Rio de Janeiro. No entanto, Cláudio Cruz, como diz a letra, acima de tudo é rubro-negro. E dos bons. Fundador da famosa torcida Raça Rubro-Negra, abomina a violência nas arquibancadas e é de uma época romântica do futebol, aquela em que a paixão pelos clubes prevalecia e, na preparação de um clássico de domingo, torcidas organizadas dos dois clubes adversários participavam do mesmo churrasco.
Uma torcida pegando no pé da outra. Crianças, mulheres. Clima de alegria, de entretenimento, e acima de tudo, de craques – de um lado, Zico, de outro, Roberto Dinamite. De um lado, Júnior, de outro, bom, não lembro. Mas, enfim, era uma época maravilhosa, que hoje é tomada pelos idiotas. Se tem alguém neste mundo que sente dor por causa disso, este é o Cláudio Cruz.
Só que este domingo, dia 25 de novembro, antes do jogo Flamengo X Atlético PR, será como se fossem os velhos tempos: Cláudio Cruz vai lançar o livro ACIMA DE TUDO RUBRO-NEGRO, que escreveu em parceria com o jornalista Wilson Aquino, que, se não me engano, é tricolor. Sem problemas. Acho que ele quis dizer algo grandioso com isto. Quis afirmar, do alto da sua autoridade, que pode, sim, escrever o livro com um tricolor, porque se tem alguém que inventou o torcer pelo Flamengo, bom, deve ser parente do Cláudio Cruz.
Há algum tempo, ele até me propôs que eu ajudasse no livro da Raça Rubro-Negra. Mas a correria do dia-a-dia, a luta pela sobrevivência, me fizeram ficar de fora. Quando ele deixou recado dizendo que tinha escrito o livro com o Aquino, eu até deveria ter ficado chateado. Mas não aconteceu - senti como se o livro fosse um pouco meu também. É uma vitória extraordinária, o lançamento deste livro.
O livro faz um breve relato da história do Clube Mais Querido e aprofunda o assunto sobre a criação e a trajetória da Charanga do Flamengo, a primeira torcida organizada do Brasil e o seu fundador, Jayme de Carvalho, conhecido como o Rei das Torcidas. O release que meu amigo Cláudio Cruz me enviou diz tudo: “O livro, além de prestar uma homenagem à torcida do Flamengo, o maior patrimônio esportivo desse pais, terá parte da sua renda destinada à dona Laura de Carvalho, eterna companheira de Jayme, que hoje, aos 87 anos, sofre do mal de Alzheimer e precisa de cuidados especiais e medicamentos muito caros.
E, para complementar tudo, Cláudio acrescenta: “Obs: Venda exclusiva para rubro-negros”
No ano passado, bem no meio do ano passado, o meu telefone tocou e eu ouvi a voz de Cláudio Cruz depois de uns bons meses. Cláudio, morador do Grajaú, volta e meia faz festas enormes em um botequim perto de casa para comemorar o aniversário do cachorro, Severino, que tem até comunidade no Orkut. Paga cerveja pros amigos até ficar sem dinheiro.Trabalha 12, 16 horas por dia, às vezes vira a noite e vai para outro emprego, tudo para sustentar a ele e a filha de 14 anos, uma rubro-negra, como ele, fanática. Ano passado, depois que ele me ligou, eu escrevi: “Cláudio é daqueles caras que fazem o ditado "não coloco a mão no fogo por ninguém" virar balela. Eu coloco a mão no fogo por Cláudio Cruz.
"Parceirão (como ele chama os amigos), tou cheio de problemas, mas não dá para eu cair nessa (corrupção). Tenho uma filha que me adora, que me vê como exemplo", ele me disse, certa vez, no meio de uma comemoração rubro-negra. É um cara daqueles que acredita mesmo que honra enche barriga, que honestidade compensa, que caráter fortalece os músculos. Que a admiração da filha por um pai honesto compensa qualquer pobreza. E, pergunto eu, o que neste mundo pode ser maior do que um filho admirar um pai?



Cláudio Cruz e o cachorro Severino



Cláudio sempre levou a vida com habilidade. Fundou o grupo carnavalesco Embaixadores da Folia, que é um sucesso absoluto. Criou a escola de samba Nação Rubro-Negra, que não vingou, e é um dos fundadores da torcida Raça Rubro-Negra, no tempo em que as palavras futebol e violência só apareciam juntas se fosse uma frase sobre o zagueiro Moisés, do Bangu.
Na véspera da final entre Flamengo x Vasco pela Copa do Brasil, ele rompeu um silêncio de meses e me ligou - mas para cumprir uma velha tradição nossa, de se falar em dia de decisão, saber onde o outro vai estar.
- Gustavão? Sou eu.
Reconheci o jeito de falar, e cumprimentei efusivamente. Ele me veio com essa:
- Rapaz, quase que fui pro outro lado. Passei quase quatro meses internado. Tirei um tumor de quatro quilos do pulmão - desabafou, com a voz trôpega. Eu tive um choque, mas me recuperei e continuei o papo reclamando dos nossos amigos em comum, que não me avisaram desses problemas todos. Ele deixou para lá. Ficou comentando que os médicos lhe aplicaram quase 400 pontos, do coração às costas, e também pontos internos. Não está mais no hospital, mas está na casa do irmão, pois não pode ficar sozinho. Pergunto quanto tempo ele tem ainda pela frente, de recuperação, claro.
- Me mandaram ficar seis meses de cama. Mas eu só vou ficar um. Você sabe bem que se eu não trabalhar eu não ganho, né, parceirão?
E sei bem o que é o trabalho dele: bicos como segurança virando a noite, depois trabalho na delegacia de dia, às vezes virando a noite. Por ele, pela filha. Dinheiro para viver, dinheiro honesto. E as despesas hospitalares?, pergunto eu.
- Gustavão, usei o plano de saúde, mas tive que pagar muito por fora. Estou devendo quase R$ 12 mil. E te confesso que não sei de onde tirar tanto dinheiro. Já gastei cerca de R$ 3 mil, que eu tinha guardado - me contou ele.
Eu interrompo para dizer que vou começar uma campanha junto aos amigos, recolher dinheiro, dar dinheiro. Nessa hora, o que é dinheiro? O que é dinheiro para Cláudio Cruz, policial civil que jamais se corrompeu e que trabalha dia e noite por ele e pela filha? Nada, perto dos amigos. Só que ele me interrompe. Não quer falar de campanha, não quer falar de nada.
- Depois a gente fala disso, parceirão. O que quero é dizer que quando eu te ligo em dia de Flamengo x Vasco, a gente ganha. Para mim, o que importa agora é o Flamengo. Dinheiro a gente fala um dia, depois. Agora o importante é o Flamengo - disse ele, com a voz trôpega. Nunca falamos da campanha e mais de um ano se passou.
Desliguei o telefone pensando em como o dinheiro pode ficar abaixo de alguma coisa neste mundo de concorrência e competição em que vivemos. Acima de tudo, rubro-negro, é o que nos disse o Cláudio Cruz, deitado em uma cama do Engenho Novo, com 400 pontos pelo corpo, tomando soro. Mas sem entregar a rapadura.
Este mesmo Cláudio Cruz que se levantou, um ano e meio depois, para lançar um livro no Maracanã. Um grande rubro-negro. Um dos grandes sujeitos deste Rio de Janeiro.

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(parte deste texto já foi publicada ano passado, quando da doença do Cláudio, doença da qual ele se livrou, na RAÇA)

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