Fregueses - 2
Nos tempos em que a televisão ainda não havia consagrado o horrível hábito de respeitar e quiçá torcer por clubes de outros estados, o que havia era o Estadual, os embates com nossos pretensos rivais, o Maracanã lotado em finais arrebatadoras, gols históricos. Saudosismo? Nada disso. É claro que uma competição em âmbito nacional agrega valor aos clubes, tanto é que temos cinco Brasileiros, fato que, digamos, ajudou uns 2% o Flamengo a ser ainda maior.
Digo 2% porque, não tivéssemos conquistado sequer um campeonato de porrinha em 110 anos de história, e ainda seríamos o maior clube do mundo, a maior força sobrenatural, a maior religião em atividade no Brasil, a camisa mais consagrada de todos os tempos. O Flamengo não depende de índices, números ou estatísticas, prática tão consagrada por homossexuais da Folha de São Paulo.
Faço este pequeno preâmbulo para que todos entendam como e por quê nós já entramos vitoriosos mais uma vez contra a cachorrada. E desenvolvo a tese a seguir.
Ocorre que lá pelos idos da década de 70, quando o malfadado time pequeno da estrela solitária vivia a Era Borer (fase na qual me propiciou muito divertimento), meu já falecido pai costumava repetir que seu problema era com esta agremiação. Eu mesmo não conseguia entender qual o motivo para que meu pai tanto ódio tivesse da cachorrada, haja vista que na época me cansava de ver o Flamengo aplicar tenebrosas surras na turma de Mendonça, Cremilson, Tuca e Puruca.
Havia um motivo: meu pai chegara ao Rio - de Nazaré, na Bahia - no fim da década de 50, início da de 60. E viu as decisões de 1961 e 1962, ambas vencidas por Garrincha, certamente um dos maiores jogadores de todos os tempos. Sua antipatia certamente nasceu ali, e eu só percebi anos depois. Por sorte (!) ele não estava vivo para ver o gol roubado de Mauricio encerrar de forma escandalosa o jejum merecido da cachorrada.
Do mesmo jeito que o ódio de meu pai pelo Botafogo se fundamentou no assombro diante de Garrincha, posso dizer, sem medo de errar, que é tão-somente por causa de Garrincha, Didi e Paulinho Valentim que o Botafogo ainda se vê como time grande. Mas aí cito os Rolling Stones: The singer, not the song (citação já feita por Oswaldo Tinhorão): tivesse Garrincha vestido a camisa do Corinthians, por exemplo, e até o time paulista poderia ser considerado um grande clube do futebol brasileiro. E o Botafogo, por sua vez, consolidaria sua liderança em torneios de bocha, bridge e gamão, no bingo que teria de abrir para sobreviver.
Outro dia, quando citei aqui o conceito de "times condenáveis" (v. Muhlemberg, Arthur), me atacaram, dizendo que eu teria de "respeitar os outros times que vêm ganhando mais fama e glória vencendo o Flamengo". Ora, é menas (v. Da Silva, Luiz Inácio Lula) verdade. Em primeiro lugar - e é aí que eu pretendo chegar - há certos times que existem tão-somente para tentar ganhar do Flamengo (na maior parte das vezes, como sabemos, em vão), vivem da glória efêmera e artificial de uma vitória sobre o Mais Querido. Não almejam mais nada existencialmente. São como cracas ou anêmonas, vivendo de absorver energia e planctôn dos dejetos rubro-negros. E é exatamente este o caso do Botafogo. Basta reparar no quanto eles relacionam vitórias medíocres como se fôra título de campeonato - é um tal de 1 a 0 com time reserva, 1 a 0 do Renato Sá, 1 a 0 de 1989. Os 6 a 0? Como citar algo que foi devolvido em dobro (6 a 0 e 6 a 1)?
Malgrado os surtos de estranha humildade que acometem a alguns de nós, como no caso que citei acima, é preciso admitir que, por um sortilégio do destino ou outro, uma bola na canela do Alex Alves ou mesmo uma cabeçada errada do atacante condenado pela Justiça, o Botafogo, pode sim, atrapalhar a vida do Flamengo neste domingo. É diferente, porque se trata do motivo pelo qual vivem - a tentativa vã e desesperada de sugar (algumas vezes no duplo sentido) um pouco da glória que é Ser Flamengo.
Podem, mas não vão. A faca já está na caveira, como dizem policiais envolvidos em operações especiais. O certo será atropelar a cachorrada, dando-lhes a ele a chance de conhecer seu verdadeiro papel histórico, que é o de capacho do Flamengo, como todos os outros.
Estamos na zona de rebaixamento? Nossa diretoria é ruim? Nosso time é horrível? Tudo isto é verdade - mas acima de tudo, prevalece nos momentos graves a verdade rubro-negra, da superioridade absoluta sobre tudo o que é relacionado à cachorrada. Neste domingo, vamos atropelar sim e devolvê-los ao asilo dos DVDs do Garrincha.
Hã? Não tem em DVD? Tudo bem, VHS.
sábado, 5 de novembro de 2005
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