segunda-feira, 17 de outubro de 2005

Viva o Clube de Regatas do Flamengo
Nascido Flamengo em 1968, acho que apenas seis anos depois fui batizado nesta religião, ou melhor dizendo, só tive consciência de que eu era o Flamengo que efetivamente nasci em algum jogo contra o América de Ivo Wortmann, Álvaro, Luisinho Tombo e Flexa (que foi à Seleção Brasileira de Oswaldo Brandão). Mas ainda criança, medindo o tamanho da geladeira, sem noção da própria mortalidade, já entendia o que era aquele manto rubro-negro, já sabia que aquela era uma forma de purificação, já tinha a compreensão de que pertencia a um mundo melhor.
Os anos foram passando, e o que fica mais forte é a relação Flamengo-Pai. Para os que, como eu, perdem cedo o pai, o Manto fica ainda mais Sagrado. Trata-se da perpetuação da vida, da festa da memória. De 1978 a 1983, como já escrevi outras vezes no blog, vivi com o velho anos dourados, espetaculares, volta e meia interrompidos por um Vasco de Guina ou por um Fluminense de Aldo. Mas nunca pelo Botafogo, que em 1989 arrancou de nós a frase "Ainda bem que o pai não está vivo para ver isso".
Mas de resto, depois que Zico foi para o outro hemisfério deste mundo, no fim de 1983, meu pai acabou indo para o outro mundo neste hemisfério. Foi ali, no início de 1984. Fica a memória, a capacidade de viver um momento como Flamengo x Atlético de 1987 (descrito magistralmente por Maurício Neves, na minha opinião o melhor redator de futebol que já li), e pensar, "caramba, queria que meu pai estivesse aqui". I wish him here. Mas ele, de certa forma estava. Afinal, estava ali o manto purificador, as cores vermelha e preta, o sangue escorrendo das chagas de guerreiros de uma batalha no Mineirão.
Uma batalha vencida - mas que, mesmo se tivesse sido perdida, despertaria o mesmo orgulho, pois teria sido perdida com sangue. Desejaria do mesmo jeito a presença já não possível de meu pai.
E é esta a diferença: o time de futebol do Flamengo chegou a um ponto tal que eu já não desejo a presença de meu pai. Prefiro que ele esteja no descanso, se Deus quiser, jogando peladas com Zizinho, Dida e Joel, seus ídolos de juventude.
E é por ele que eu faço o mais estranho pedido já feito neste blog: senhor Márcio Braga, renda-se, torne extinto o departamento de futebol, voltemos a ser o Clube de Regatas do Flamengo. Nós, torcedores, não merecemos que o Manto Sagrado seja maculado, seja alvo de deboches de um invertebrado como o sr. Benjamin Back (do Lance, aquele jornal de São Paulo que tem sucursal no Rio), seja objeto de prazer de um recalcado como o lamentável Luis Roberto, seja criticado por um pulha ordinário como o sr. Milton Neves. Sujeitos assim jamais poderiam proferir nojeiras sobre o Flamengo como fazem, colocando o clube na condição inferior, confundindo o Manto, o Clube de Regatas, a Religião, com a situação que ora permanece, em que o pior do futebol brasileiro ganha R$ 30 mil mensais para sujar a camisa rubro-negra.
Sr. Márcio Braga, olhe-se no espelho depois desta surra do São Paulo, lembre-se do que disse sobre Amoroso, e raciocine, pense na sua total falta de noção do que seja o futebol brasileiro. Por que tirar onda com o São Paulo se o senhor trouxe Moscatelli (ordens do Uram), Fabiano, Fernando (ordens de algum imbecil), Renato, Diego Souza, Fábio Júnior? Por que dizer "Quem é Tevez?" se o senhor mesmo nunca respondeu "Quem é Moscatelli? Quem é Fábio Júnior? Quem é Robson?".
Sim, sr. presidente. É agora, é fazer agora, antes que venha a humilhação inevitável, que é o rebaixamento, ou a manutenção na primeira divisão por conta de melar o campeonato (nós não podemos carregar esta pecha de tricolores recalcados que jamais viram a glória de uma Libertadores). Sim, senhor presidente, vamos extinguir o departamento de futebol e voltar a vibrar com esquifes na Lagoa Rodrigo de Freitas, voltar a nos abraçar com a vitória de um oito-com, festejar os títulos de remo carioca, acender uma vela à memória do Buck.
Somos muito mais Flamengo quando estamos remando do que quando permitimos que o nome sagrado do nosso clube seja manchado por essa imprensa ordinária, que no fundo baba de prazer pelo canto da boca (inclusive dá para ver que o sêmen excedente acaba sendo eliminado) quando diz "o Flamengo foi goleado".
O Flamengo não é essa gente.
O Flamengo não é esse Renato, pereba incurável propalado pela imprensa como "principal jogador do Flamengo". O Flamengo não é o passivo Diego, que falha em todas as saídas de gol e é goleado sem chorar, sem sair para tentar uma loucura, sem ficar puto com a zaga. O Diego é o retrato de um anti-Flamengo, o Diego não tem culpa, realmente, do que acontece. Mas ele é o anti-Flamengo exatamente por causa disso: por se comportar como se não tivesse culpa nenhuma, com a passividade dos que já nasceram derrotados.
O Flamengo não é Júnior Baiano, RINDO antes da coletiva depois de levar seis gols. O Flamengo não é Fábio Júnior, seguramente entre os dez piores jogadores que já vi nestes 30 anos em que assisto o meu clube. O Flamengo não é o ridículo Obina tentando se jogar no chão, o lamentável Jonatas perdido em campo, o patético Leonardo Moura - jogador de defesa não pode usar dois brincos na mesma orelha.
Costumo dizer que nós, seres humanos, somos animais desgraçados - por termos consciência da própria morte, por vermos nossa carne envelhecer, por sermos perecíveis, por nos degenerarmos com o tempo. Como animal desgraçado, buscamos, no Flamengo, no Manto Absolutamente Sagrado, a purificação, a própria salvação, a canonização - ser Flamengo é, sim, uma bênção. Não é, JAMAIS, uma vergonha.
Vergonha é, senhor presidente, manter um time como este vestindo a camisa do Clube de Regatas do Flamengo. Façamos assim: a gente encerra o campeonato usando um uniforme diferente, de preferência com qualquer cor e uma faixa em diagonal. No fim do campeonato, caso rebaixados, o senhor extingue o futebol. No dia seguinte, vou para a Lagoa Rodrigo de Freitas debochar dos remadores adversários, dizer que não os conheço, etc.
Passamos anos assim, vibrando com o Remo, com as Regatas. Nos purificando com o manto, adormecido no futebol, mas vivo como sempre. Enquanto isso, assistimos com nossos filhos a DVDs de 1979, de 1980, de 1987. Ensinamos aos nossos filhos que aquilo é o Flamengo e que é moralmente condenável (expressão criada por Arthur Muhlemberg) torcer por agremiações sem expressão e vida, como Atlético Paranaense, Baraúnas, Paraná Clube, Vasco, Fluminense, CRB e Botafogo. A gente ensina a eles que o Flamengo é o certo.
Os anos vão passar, e nos manteremos vivos com a saudade do Zico. Aí, um dia, um presidente (que não o senhor, senhor Márcio Braga, pois já mostrou que não tem capacidade) vem e recria o departamento de futebol, monta um time decente, e os tempos de glória voltarão.
E eu farei uma prece. Sim, pai, vou lhe desejar por perto novamente.

Flamengo Net

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