domingo, 23 de outubro de 2005

Urubus

Nada mais sensata que a coluna Maracanazzo, de Mauro Cezar Pereira, no site Trivela.com, sobre o momento pelo qual passa o Flamengo.


por Mauro Cezar Pereira mauro@trivela.com
18/outubro/2005
"Os urubus

O time que foi a campo era formado por Júlio César; Fábio Augusto, André Bahia, Ânderson Lima e Cássio; Jorginho, Rocha (Bruno Carvalho), Beto e Petkovic; Reinaldo (Jackson) e Roma. Técnico: Zagallo. E essa foi a equipe do Flamengo que perdeu por 5 a 1 para o Vasco (três gols de Romário) em 6 de outubro de 2001.

Júlio César; Fabiano Eller, Fabinho e André Bahia; Luciano Baiano, Jônatas (Zé Carlos), Igor (Paulo Miranda), Felipe e Cássio; Jean e Fernando Baiano (Fernando Diniz). Técnico: Nelsinho Baptista. Pois foi com esses jogadores que o Flamengo levou uma sova do Paraná no dia 1º de junho de 2003: 6 a 2.

Mais uma escalação: Júlio César; China, Valdomiro, Júnior Baiano e Athirson; Da Silva, Douglas Silva, Jônatas (Anderson) e Zinho (Júnior); Jean e Dimba (Dil). Técnico: Andrade. Foi esse o Flamengo que apanhou do Atlético-MG por 6 a 1 no ano passado.

Agora a equipe do que perdeu pelo mesmo placar para o São Paulo, no domingo: Diego; Leonardo Moura, Júnior Baiano, Renato Silva e André; Róbson (Marcelo), Jônatas, Diego Souza e Renato; Josafá (Fábio Júnior) e César Ramírez (Obina). Técnico: Andrade.

Responda rapidamente: há grandes diferenças entre essas equipes? Em tese, não. São todas limitadas, fracas. Individualmente, a atual seria até melhor em uma posição ou em outra. É evidente que estão muito abaixo das tradições rubro-negras, o que já não é novidade. Há anos o clube mais vezes campeão brasileiro apresenta elencos risíveis, que colecionam fracassos nos campeonatos brasileiros.

Daí me parece simplista a interpretação muitas vezes apresentada de que este é ´o pior´ elenco da história rubro-negra. Tal argumento serve apenas para desviar a atenção dos reais problemas, que permitem, toleram, estimulam até o desempenho pífio em campo, seja lá que time for. Como em 2000, quando se reuniram na Gávea Alex, Denílson, Petkovic, Gamarra, Edílson, Adriano, Reinaldo, Júlio César e outros bons (ou excelentes) jogadores.

O Flamengo é um clube rachado. Imagine a complexidade político-religiosa no Oriente Médio. Muçulmanos, xiitas, sunitas, terroristas, pacifistas, fanáticos, contidos, gente pró-Estados Unidos, ferrenhos anti-americanos... Há uma gigantesca salada de tendências. Na Gávea não é muito diferente. Helal, Kleber, Oaquim, Dantas, Dunshee, Edmundo, Braga, Ferraz, Biscotto, Gomes, entre outros nomes, há décadas se revezam no poder ou tentando chegar a ele.

Mas façamos uma ressalva: enquanto na região mais tensa do planeta é quase sagrada a manutenção de idéias e ideais, no universo flamenguista as correntes políticas dançam de acordo com pequenas, mesquinhas conveniências. Mudar de lado é simples e recorrente, desde que pareça interessante para alguns. Daí se explica a presença de Gérson Biscotto na direção de futebol. Ele era um dos adversários do atual presidente nas eleições que recolocaram Márcio Braga à frente do clube.

Da mesma forma, Kléber Leite, Hélio Ferraz e outros estão desembarcando no comando do esfacelado futebol flamenguista em meio à crise, agravada pelo 6 a 1 imposto pelo São Paulo. O discurso de união é apenas retórica. Não há solidez política, tampouco os interesses do clube são posicionados à frente da vaidade e dos interesses dos responsáveis pela política (ou seria politicagem?) vermelha e preta.

A meta agora é tirar o Flamengo do rebaixamento. De novo. E é possível que consigam, diante da péssima qualidade de outros times da Série A que, pasmem, conseguem ser piores do que o ex-campeão nacional, sul-americano e mundial. Se acontecer mais uma vez, como nos últimos anos, discursarão como vitoriosos, prometerão novos tempos à chamada ´nação rubro-negra´. E imediatamente voltarão a se engalfinhar. Todos querem o poder, mesmo que o Flamengo apodreça. Como autênticos urubus."

Flamengo Net

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