Quando começou a nossa decadência? (Parte 1)
Já faz treze anos que conseguimos nosso último campeonato nacional, e de lá pra cá, só tivemos campanhas relativamente boas (com chance de conquistar o título) em 1993 e 1997. Uma pergunta que eu sempre me faço é: quando começamos a decair?
No início dos anos 80, quando chegamos a campeões mundiais, éramos um modelo de organização e administração. Os jogadores eram bem remunerados, as divisões de base formavam ótimos jogadores a cada ano, e conseguíamos mantermos no topo sem precisar de grandes contratações. Nossa base era a fantástica prata-da-casa dos anos 70 (Zico, Júnior, Andrade, Adílio, Tita, Leandro, Mozer, Figueiredo, Rondinelli, Júlio César, etc.). Não se falava em patrocinador, as camisas não eram emporcalhadas com um monte de logotipos e os salários dos grandes jogadores eram altos, mas não indecentes. Os estádios viviam lotados, e as torcidas organizadas não eram grupos paramilitares visando o extermínio mútuo.
Fomos seguramente o time que mais sofreu com o início da fase de contratações maciças do futebol europeu nos anos oitenta, passamos todo ano a exportar craques para o exterior, mas ainda tínhamos um plantel renovável que podia manter a nossa força. Abalado pela perda de supercraques como Zico e Júnior, e já vivendo uma época em que a mentalidade defensiva passou a predominar, em função do maldita tragédia do Sarriá em 82, passamos por momentos difíceis nos anos 83-86, mas mesmo assim, sempre chegamos nas últimas fases dos campeonatos nacionais, e estivemos em todas as finais do Carioca na década. Uma nova geração de jogadores formados em casa nos garantiu uma nova geração vencedora em 86 e 87, mas continuávamos a sofrer com o assédio persistente das máfias de empresários e exportadores de atletas. O brilhante time de 87 acabou sendo progressivamente desmontado, Zico parou, e assistimos a um período muito ruim entre 1989 e 1991, com times piorados, crises administrativas, atrasos de pagamento, e as primeiras notícias sobre o famoso ?rombo? nas contas. Contratamos o badalado Vanderlei Luxemburgo, que saiu reclamando da falta de estrutura. Nas mãos do competente Carlinhos, vimos uma nova geração de juniores, liderados pelo veterano Júnior, nos trazer de volta ao título nacional. Em 1993 passamos por uma verdadeira maratona, com direito a Libertadores e a uma final de Supercopa (realizada no fim do ano, um período no qual a sempre mal-intencionada federação carioca nos obrigou a disputar cinco jogos em uma semana), e fomos o único carioca classificado para a penúltima fase do Brasileiro. Parecia que mais uma vez subiríamos no momento certo, e arrancaríamos para mais um título. Ocorreu o oposto: num quadrangular com Corinthians, Santos e Vitória, não conseguimos ganhar um jogo sequer e terminamos em último. A base campeã de 1991 e 1992 começava a cair de rendimento, Júnior já havia parado, e a prolongada crise financeira nos levou a um time bem enfraquecido para 1994.
Eu acho que 1994 é um ano-chave que marca o início de nossa decadência. A partir deste ano passamos a ter gerações de juniores predominantemente fracas. Não sei a explicação, não sei mudou algo na estrutura de treinamento e formação de jogadores, não sei a presença de empresários passou a ser mais forte, aliciando jogadores cada vez mais cedo, mas o fato é que desde lá, contamos nos dedos os jogadores formados no Flamengo que chegariam à Seleção Brasileira: Sávio, Júlio César, Athirson, Gilberto (se desconsiderarmos seu início no América), Juan e Adriano.
Começamos 94 como o fraco dos quatro times cariocas, e quase não chegamos ao quadrangular final. Aí, na fase final, o time se recuperou, e mesmo com 3 pontos de desvantagem, largamos na frente, mas acabamos perdendo o campeonato graças as manobras do Eurico Miranda, que mudou a tabela em conluio com a FERJ. Tínhamos Charles Baiano como artilheiro do campeonato e Valdeir como opção para o ataque. Perdemos Charles para o Brasileiro devido a uma contusão, e nossa expectativa não era das melhores.
Surpreendentemente, tivemos um início no Brasileiro razoável, classificando-nos num grupo com Corinthians, Grêmio, Juventude, Bragantino e Sport, com o apogeu marcado pela goleada sobre o Corinthians, 5x2. Um time cuja formação titular ideal seria Gilmar, Henrique, Gélson, Índio e Marcos Adriano; Charles, Marquinhos, Hugo e Nélio; Magno e Sávio.
Aí veio a segunda fase do campeonato, onde todos os classificados se enfrentariam num turno único. Começamos aí nossa rotina de vexames seguidos, passamos por oito jogos seguidos sem vencer, e chegamos a freqüentar as últimas posições da tabela. O final de ano medíocre marcou o final da administração Velloso e foi o catalisador da eleição de Kleber Leite, com seus projetos de marketing mirabolantes e promessas de formar um supertime, falava-se em Telê Santana como técnico.
(CONTINUA)
* esta é minha coluna 100, gostaria que fosse falando sobre algo positivo, mas depois da trombada de hoje, não dá.

|