Carta aberta de Pablo Duarte Cardoso para o Presidente Márcio Braga
Senhor Presidente, meu caro Márcio Braga,
Li não sem um certo assombro sua resposta à carta do torcedor Lucas Dantas, que lhe cobrava garantias de que o Flamengo não cairá para a segunda divisão, ao término desta que se antecipa mais uma temporada penosa para a maior torcida do Brasil.
Há anos a distância não me permite ir ao Maracanã ver o Flamengo em campo, quanto mais freqüentar a sede do clube para avaliar se tem fundamento a sua certeza de que "nós não cairemos". A mim, à distância, quer-me parecer que a sua afirmação abunda em exclamações e carece de convicção. Assistindo, ontem, a mais um pífio desempenho desse - reconheçamo-lo de uma vez - time indigno de trajar o Manto Sagrado, fico à espera da iluminação que me faça enxergar os motivos de seu otimismo injustificado.
Disse "otimismo" e retifico. Não pode haver "otimismo" na expectativa de que o Flamengo se limite a um papel decoroso num futebol nivelado por baixo. Não podem ser "otimistas" as expectativas de que o Flamengo não caia para a segunda divisão num campeonato liderado por esse colosso que é a Ponte Preta de Campinas. Não pode ser "otimista" a perspectiva de terminar o campeonato sem pena nem glória - não para quem já foi pentacampeão do Brasil, para quem foi campeão da América e campeão do mundo, para quem se acostumou a ver a Camisa 10 da Gávea vestindo o Zico, não esses rapazes nem sempre esforçados e raramente talentosos que hoje envergam o Manto.
Senhor Presidente, o autor destas linhas não é um opositor raivoso, dos que se comprazem com as derrotas rubro-negras por algum dissabor político surgido nalguma eleição perdida. O autor destas linhas nem sócio é: é apenas mais um dos milhões de rubro-negros indignados com a absoluta irrelevância do Flamengo de hoje no cenário futebolístico brasileiro - irrelevância que não é obra sua, Senhor Presidente, mas que talvez o senhor e sua equipe não estejam conseguindo reverter com a urgência que o caso requer.
Pelo contrário, sou antes um admirador de sua obra pretérita à frente do Flamengo. Como a maioria dos rubro-negros de memória, sou-lhe grato pelos seus esforços que levaram este clube, no passado, a ocupar a sua posição natural de força hegemônica do futebol brasileiro; que fizeram do Flamengo um clube tão seguro de si que não se curvava ao arbítrio da CBF ou da FIFA quando o que estava em jogo eram os legítimos interesses rubro-negros.
E é por isso, Senhor Presidente, é por essa admiração por sua biografia de rubro-negro e de vencedor que me dói vê-lo à frente do que parece uma nau sem rumo - ou com rumo certo mas doloroso: a segunda divisão. Pois é preciso que não nos enganemos: o futebol que andamos jogando é futebol de segunda divisão, ainda que nos salvemos da degola, como de hábito, na última rodada do campeonato. Não interessa: futebol de segunda divisão nós estamos jogando há tempos, e sua gestão não foi capaz de reverter isso.
Presidente, o senhor me desculpará se eu me declarar insatisfeito com sua resposta à carta aberta do Lucas Dantas. Além de sua exclamação de que "nós não cairemos", eu queria garantias suas de que não rumamos para a segunda divisão e - mais - de que alguma coisa tem sido feita para que o Flamengo recupere sua posição de hegemonia no futebol brasileiro.
Entendo que algumas das administrações recentes deixaram as finanças do clube em petição de miséria e entendo que é preciso tempo e esforço para pôr as contas em ordem. Não fecho os olhos a nada disso. Mas, sinceramente, não vejo, nos rumos da atual administração, qualquer indício de que o Flamengo queira explorar à exaustão outras possibilidades de financiamento condizentes com a nossa ambição comum de vê-lo novamente vencedor, novamente orgulhoso, novamente hegemônico. Continuamos aferrados à idéia ultrapassada de que podemos voltar ao topo do mundo com uma administração de clube de bairro, em que o estado das piscinas é tão prioritário quanto quem veste a Camisa 10.
Sinceramente, não sei se espero uma resposta sua, Senhor Presidente, porque imagino que não existam as tais garantias de que as coisas se encaminham para uma solução satisfatória. Se existem, talvez esta seja uma oportunidade de prestar contas à torcida do que tem sido feito para evitar a catástrofe que se avizinha e para recuperar a posição de preeminência do Flamengo no futebol brasileiro. O senhor será o melhor juiz disso.
Só me permito, Senhor Presidente, um último pitaco, se não for abusar demais: o senhor tem sido muito mal assessorado em matéria de futebol. Não há boa vontade que resista à constatação de que doze jogadores desse triste elenco rubro-negro são intermediados pelo sr. Eduardo Uram.
Pablo Duarte Cardoso
Obs.:1 - Pablo Duarte Cardoso foi colaborador do blog, está radicado em outro País mas nunca deixou de acompanhar a sua (e a nossa) paixão.
2 - Gostaríamos de pedir aos nossos participantes dos comentários que se limitassem a debater o conteúdo da carta.
terça-feira, 5 de julho de 2005
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