Estadual 2005 -- O discreto charme da aristocracia decadente
Ok, ok. Todos sabemos que ganhar o Campeonato Estadual do Rio de Janeiro não significa muita coisa. Pode até ser ruim, por iludir o time e a torcida com um título que não credencia ninguém a fazer boa figura em competições nacionais. Sabemos também que o Estadual é expressão máxima da cultura esportiva que envolve Federação, clubes e dirigentes numa espécie de bruma de desmandos, inércia e falta de visão. Mas quer saber? Eu gosto do campeonato e acompanho sempre.
Como já foi dito, a suposta "decadência" do futebol carioca é uma dimensão do processo de esvaziamento político, cultural e econômico do Rio de Janeiro. Ou seja, é um problema complexo que não pode ser creditado apenas na conta do Caixa, e que diz respeito às mudanças que transformaram o país desde final dos anos 80. Afinal, o país se abriu (as pernas, mesmo), se "modernizou" (sic) e entrou com tudo na globalização, elegendo o mercado como guia e padroeiro. Naturalmente, uma transformação que encontrou seu lugar e sua condução em São Paulo, região que sempre se pautou por esse processo de desenvolvimento. O Rio, sede da Corte e da burocracia, terreno da informalidade e com um vasto contigente de funcionários públicos, era (e é) local estranho a esta nova configuração. Pois bem. Lá se vão dez anos de hegemonia paulista na política (FHC 1, 2 e o genérico 3). E o nosso futebol nos últimos anos se apequenando, a mídia voltada para SP, etc. Chegamos até aqui.
Mas quer saber? Ainda há centelhas na nossa decadência! Gosto de comparar os campeonatos carioca e paulista a dois hotéis. Este é moderno, equipado, como um 5 estrelas em Miami. Tudo funciona bonitinho e com eficiência, mas depois de 3 dias você não aguenta mais o ar fake e o sorriso de plástico das recepcionistas. O carioca é como um hotel pulguento no centro de uma cidade grande. Velho, feio, com carpete sujo e dirigido por um casal de velhos meio surdo. Mas depois de 3 dias você percebe que o negócio é cheio de histórias, tradições e que os hóspedes parecem loucos, mas são reais e divertidos. Ao final, você descobre que o hotel está intimamente ligado à vida urbana ao seu redor, e que é mais que um estabelecimento comercial. É quase um centro cultural vivo. Pois é.
A despeito de todos os problemas, acredito que temos um hotel velho, decadente, mas charmoso em mãos. Pessoas de visão curta sugeririam a demolição do mesmo e a construção de um complexo hoteleiro moderno e equipado. Pessoas decentes percebem que o que falta é uma boa reforma interna e uma faxina, que resgate o valor do imóvel e o transforme numa atração nacional. As fundações estão aí. A história também. Que se mude a gerência também.
Há os que só admitem voltar a ele após essa reforma (perfeitamente compreensível). E há os viciados, como eu, que se hospedam mesmo nas atuais condições precárias. Que seja, o importante é não abandoná-lo. E vocês? Vão encarar?
segunda-feira, 10 de janeiro de 2005
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