"O resultado foi bom, você não acha?"
Depois das homenagens ao rubro-negro Chico Buarque e da declaração do ídolo Fernando, também encontrei um assunto para não comentar o quinto empate do Flamengo em dez jogos no Brasileiro. Talvez os colegas do blog que são do ramo possam ajudar a solucionar o enigma.
No fim da pelada de hoje, o colega da Globo deu novo exemplo de um estranho hábito dos jornalistas esportivos no Brasil, abordando o Julio Cesar com alguma coisa semelhante ao título aí em cima. Não contente em responder pelo goleiro, já foi cantando as justificativas: os seis desfalques do time, o gramado ruim de Limeira, o resfriado da avó que ficou no Rio. Fica a pergunta:
Por que os repórteres de campo insistem em responder as perguntas que eles próprios fazem aos jogadores?Alguém mencionará a dificuldade de comunicação da maioria dos nossos craques, que estudaram pouco e têm mais habilidade com a bola do que com o idioma. Nesse caso - que por sinal não atinge o grande JC -, é de se perguntar por que as entrevistas de campo continuam tão onipresentes nas transmissões quanto os comentaristas de arbitragem que, espertamente, guardam seus veredictos para depois do replay.
Outra explicação possível seria a natureza da cobertura esportiva da Globo. Já que a emissora detém o monopólio das transmissões, deixou de fazer jornalismo para vender o futebol como espetáculo. Criticar um campeonato de dirigentes corruptos e nível técnico baixo, sem os principais jogadores da Seleção, poderia significar a perda de preciosos pontos no ibope para o Gugu e os bispos da Record (isso para não mencionar o horário obsceno de 21h40 imposto às rodadas de meio de semana, sempre anunciadas com sorrisos pelo casal-telejornal). Mas temos aí outro problema: os veículos menores reproduzem o mesmo tipo de "entrevista" e, pior, quase nunca contestam uma declaração ou pedem explicações por um caso de displicência, deslealdade etc.
Resta a hipótese de que, por aqui, jornalismo esportivo não é levado a sério. Não interessa saber o que o jogador tem a dizer ou o que se passa nos bastidores dos clubes: o importante é fazer as duas "entrevistas-relâmpago", resumir os resultados da rodada e passar a bola para o Faustão, que vem aí com outras atrações.
Raciocínio semelhante está matando os cadernos culturais, cada vez mais "terceirizados" como instrumento para a promoção de discos, filmes e festivais de música (mais uma vez, para não falar nos suplementos transformados em divulgação de novelas, especialmente nos jornais populares).
Parece que, para os homens que comandam a programação esportiva e cultural, o negócio é entreter. Espírito crítico, independência e fiscalização do poder são coisa para os "chatos" das páginas de política e economia. Eles que se aturem.
O Flamengo segue na zona de rebaixamento do Brasileiro, com uma vitória, cinco empates e quatro derrotas. Na próxima quarta, começa a decidir um torneio esvaziado com o Santo André, depois de passar por Vitória, Grêmio (18o. no Brasileiro), Santa Cruz, Tupi e pelo CRB de Alagoas.
"O resultado foi bom, você não acha?"

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