Noventa mil minutos
Quando Flamengo e Santo André entrarem em campo nesta noite, um fato maior do que a Copa do Brasil estará para acontecer: este será o milésimo jogo do Flamengo na vida de Eduardo Vinicius de Souza. Trinta milhões de rubro-negros poderão ser campeões, mas só um de nós atingirá a marca de mil jogos quando a bola rolar: Eduardo Vinicius de Souza.
Primeiro, saiba você que me lê, caro amigo rubro-negro, que não há mínima chance de você ser mais torcedor do Flamengo do que eu. Posso admitir a hipótese de você ser tão torcedor do Flamengo quanto eu, embora o faça com reservas e mesmo duvide disso, mas preciso admitir: Eduardo Vinicius de Souza é mais Flamengo do que eu, do que você e do que o Maracanã lotado. Ele é um dos apaixonados fundamentais. Agustin Valido disse que jogaria a final de 1944 nem que fosse morto. Gilberto Cardoso morreu momentos depois de uma cesta decisiva em um Flamengo x Sírio. E este é o ritmo de Eduardo: ele dá a vida pelo Flamengo porque a sua vida é o Flamengo.
Seria uma perda de tempo eu dizer que Eduardo é conselheiro do clube, que já foi vice-presidente de patrimônio histórico, que tem em casa o maior museu rubro-negro do mundo. São diminuições. A única definição justa, que alcança a grandeza necessária, é esta: Eduardo é Flamengo. E é preciso que não se dê à frase o seu signifcado cotidiano, que indica que fulano é torcedor de um clube, que acompanha os jogos, que nas horas vagas lê as notícias nos jornais e que espera pelos gols no Globo Esporte. Estes, como nós, são torcedores. Dedicados, sim, apaixonados, como não? Mas apenas torcedores, que podem ser definidos de outra forma : médicos, estudantes, favelados, padres, golpistas, músicos, escritores, bêbados, e outros atributos a que se pode acrescentar e torcedor do Flamengo. Não é o caso de Eduardo. Perguntem, em ocasiões variadas, quem é Eduardo Vinicius de Souza, e a resposta será essa: Edu é Flamengo.
Mil jogos de futebol, e não me refiro às formas indiretas de acompanhar o time, como rádio e televisão. E nem entram nessa conta os jogos de basquete, vôlei, as provas de natação, a ginástica, o water-pólo e o futsal. Não entram também os jogos das categorias de base das centenas de preliminares que presenciou. Esta será a milésima vez que Eduardo vai ao estádio para assistir a um jogo do time profissional do Flamengo e, à beira do milésimo jogo, ele ainda se emociona com as camisas rubro-negras como se fosse a primeira vez.
Eu não sei qual foi o número do jogo Flamengo 3x1 Vasco, final do estadual de 2001, na vida de Eduardo. Mas lembro que, um dia antes, eu comentei com ele que estava confiante e que, embora fosse difícil fazer e manter dois gols de diferença, eu considerava aquela uma missão do tamanho do Flamengo. Eduardo me corrigiu e disse: "essa missão é muito pequena perto do tamanho do Flamengo. Nada é do tamanho do Flamengo."
Foto: Arthur Muhlenberg
quarta-feira, 30 de junho de 2004
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mauricio_neves
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